sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Estácio


Não toda a cidade.

Não os aglomerados coloridos de neon
cujo central glamour humilha e derrota
o brilho de holofotes.

Jamais o pasto lascivo de sereias
e de heróis, lambido de ondas
e beijado de sol.

Às quatro horas e quarenta e quatro da manhã
os paralelepípedos silenciosos
da miserável rua no bairro do Estácio
interrompem a madrugada paulistana
e me arrancam da cama
para escrever.

Uma rua me inspira.

Uma fedorenta rua.

Na verdade, são mais; são centenas,
são quase bairros, porque várias se igualam
e se juntam à ela,
são diversas,
todas entrelaçadas
em rotas há muito traçadas e esquecidas,
como cidades reaparecidas após submersas séculos
num pântano de apodrecidas águas.

Não sei se aqui canto uma ode
ou elegia,
de tanto que sabem à morte
e à ruína.
Mas não são as ruínas honradas de uma guerra
ou de um templo abandonado de onde os homens
e os deuses partiram, assim como deles eu parti também.
Tampouco as ruínas gregas de espalhafatosos mármores
que o desbotar do tempo amansou em branco isento.

As minhas, são ruínas de descaso e ainda habitadas:
a madeira das portas apodreceu
e os vidros rachados nas janelas, também podres
de batentes e frestas, antes espelham
a sujeira do que permitem a entrada de luz
em casas onde o reboco das paredes ao desabar
no assoalho infestado de cupins
expôs tijolos desbotados de desonra
e canos enferrujados, como tripas
de um cadáver emparedado
entre pedras de cantaria.

São ruínas entre moscas, mosquitos e baratas
procriando no calor e na umidade,
por onde se arrastam ratos, lagartixas e idosos humilhados
como carcomidas cariátides corcundas carregando,
entre goteiras, musgo e fungos, existências de fracasso
apoiados em bengalas de cabos de vassoura feitas em casa,
e os jovens prematuramente envelhecem
derrotados num presente desprezível de futuro parco,
e todas as crianças já nascem com imaginárias
tatuagens na testa vaticinando-lhes um destino
de fiasco e malogro. Ruas de salário-mínimo, subemprego
e aposentados vagando em vidas de insucesso que definham
ao peso de lumbagos, joanetes, hemoptises, doenças venéreas,
erisipelas, diarreias, bicos de papagaio, varizes, alergias,
bronquites, hemorroidas, sinusites e reumatismos vários
que enfraquecem corpos a quem o infarto fulminante
seria um luxo impensável.

Ruas onde os mendigos dividem o espaço
noturno com gatos e os cachorros soltos
perambulam magros, disputando todos
as mesmas latas de lixo. Ruas de vida abjeta,
onde se admite o sexo pago, os pequenos furtos, os adultérios,
a mentira, a grosseria, a impotência sexual,
o vômito das bebedeiras. a frigidez e as intrigas baixas,
mas o assassinato não comparece
por falta de coragem.

Ruas onde sarjetas sórdidas se inundam
de águas sujas e independentes da chuva
como se assim imundas já brotassem do meio fio
entre fontes de urina e guimbas de cigarro.

Ruas da perda que a cidade envergonhada
relegou a um gueto ao rés do chão
e se ergueu defensiva em viadutos
que as sobrevoam, isolando assim o seu desdouro
em eterna quarentena.

Ruas do fracasso, do lixo, do fedor, do desprezo
e da vergonha, curral urbano regressivo
onde a planura do terreno e a alvenaria dos imóveis
impede-lhes a dignidade de uma favela.

Ruas que eu lamento,
pocilga de casas e subseres desabando decadentes
no abandono; ruas e pessoas
que eu entendo
e só eu amo.


segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Ítaca


Ele tivera cadillac, já fora
rico, flanava em táxis... Mas falido,
passou a pegar ônibus e bonde.
Ansioso (por vezo de patrão),
espichava o pescoço e investigava
a avenida, forçando os olhos míopes.
Acendia um cigarro, se apoiava
à árvore ou dava voltas na calçada,
como o mítico Ulisses em seu barco
faria, no oceano em calmaria.
Quando o bonde lotado enfim chegava,
mantendo o olhar amargo, ele sorria,
pois sem mulher, dinheiro nem amigos
subir no estribo era aportar em Ítaca.