segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Rio Revisited IV

                 
                  I V

Rio das Correntes

De que valeu voltar às velhas ruas
repletas de fantasmas e de histórias?

A geografia da cidade é isenta:
os paralelepípedos mostraram

apenas o minério do granito;
nas folhas que das árvores caíam

nenhum bilhete havia para ti,
e as telhas, as janelas e o reboco

dos prédios gargalharam, debochando
da procura que insistes por teimoso.

Aquilo que buscavas, refazendo
os caminhos de outrora, não achaste.

Aceita que perdeste o teu Passado:
o Tempo fustigou o calendário,

e a vida, prosseguindo na cidade,
cavoucou Rios de Setembro, Outubro...

E as águas que em Janeiro te banhavas
só correm nas correntes da memória.

                  (São Paulo, Novembro/Dezembro de 2014.)


quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Rio Revisited III


                                  I I I

Rio Noturno 

Por aquela porta, ele entrou em casa.
Mas partiu - antes de sair por ela -.
Foi a soleira derradeira dele.

Na manhã seguinte, ele e o sol se viram,
mas o astro foi quem o assistiu se pôr.
Dalí, o rio noturno o carregou.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Rio Revisited II

   
                                I I

Rio do Mangue

Cidade Nova? Não! Eu quero a velha,
quero de volta a Pinto de Azevedo
e a Jussara num tempo antes da Aids,
porque hoje creio, e lhe daria o beijo.

O oral, ela fazia até o final
e engolia. Também da sodomia
ela gostava. E nunca me cobrava;
dava o gozo de graça, por desejo,

e, após, chorava rindo, emocionada.
Um dia, disse: "Juro! Só contigo
faço tudo", e pediu um beijo na boca
"como se eu fosse honesta, tua noiva".

Ah, Jussara, não fosse pelo Heráclito,
nós e as águas do Rio retornávamos.