segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Périplo


                                       Para Miguel Torga

Numa noite vulgar de vento e chuva,
nesta imensa cidade de São Paulo
de variados mil povos e raças,
um brasileiro de ascendência lusa
sobre si mesmo atento se debruça,
e não avista em sua biografia
um passado de lutas, aventuras,
heroísmo nem brilho de batalhas.

Não alarguei o mapa do oceano
cruzando o mar hostil em caravelas,
nem impus o ódio santo em territórios,
dominando com armas outros povos;
o que impera na minha trajetória
é um combate mesquinho e miserável:
a luta desigual contra a derrota
que tocaia sedenta a minha história.

Mas a teimosa origem transmontana,
casca grossa, turrona e cabeçuda
por atrás da minha cara tosca e dura,
além do eterno vício da saudade
e insuspeitas bravura e lealdade
(prejudicadas pela ingenuidade),
também me deu a herança valiosa
do gosto e sedução pelas palavras.

Armado desta flor-espada busco 
versos de cadafalso e de jardim.
E do miúdo mas intenso mar
de prazeres, tormentas e paixões
que carrego por dentro e me alimento,
trago frases alegres ou sombrias,
e com esmero dedicado escrevo
meus poemas em língua portuguesa.

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