terça-feira, 21 de outubro de 2014

"J-19461 / Q-57"

                                         Para Ivan Junqueira  

Não é por eles. É por nós que iremos,
solenes, enfeitar com rosas brancas
e efêmeras seu leito eterno e pétreo,
pois o aroma da flor lá não penetra.

Nem a luz do pavio em nossas velas
vencerá mármore, madeira e terra,
invictos frente a crédulos e incréus.

Lembraremos a voz, o jeito, o riso...
e com saudade esqueceremos erros
por eles cometidos no convívio.

E então, se um só instante acreditarmos
que estão todos de pé, ao nosso lado,
como dentro de nós prosseguem sendo,
daremos vida aos áridos ossários.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Périplo


                                       Para Miguel Torga

Numa noite vulgar de vento e chuva,
nesta imensa cidade de São Paulo
de variados mil povos e raças,
um brasileiro de ascendência lusa
sobre si mesmo atento se debruça,
e não avista em sua biografia
um passado de lutas, aventuras,
heroísmo nem brilho de batalhas.

Não alarguei o mapa do oceano
cruzando o mar hostil em caravelas,
nem impus o ódio santo em territórios,
dominando com armas outros povos;
o que impera na minha trajetória
é um combate mesquinho e miserável:
a luta desigual contra a derrota
que tocaia sedenta a minha história.

Mas a teimosa origem transmontana,
casca grossa, turrona e cabeçuda
por atrás da minha cara tosca e dura,
além do eterno vício da saudade
e insuspeitas bravura e lealdade
(prejudicadas pela ingenuidade),
também me deu a herança valiosa
do gosto e sedução pelas palavras.

Armado desta flor-espada busco 
versos de cadafalso e de jardim.
E do miúdo mas intenso mar
de prazeres, tormentas e paixões
que carrego por dentro e me alimento,
trago frases alegres ou sombrias,
e com esmero dedicado escrevo
meus poemas em língua portuguesa.