terça-feira, 26 de agosto de 2014

Oração


Se muitos são certos de céu e inferno,
outros não menos certos nada esperam.
Mas ambos, com ou sem credo, se iludem 
escolhendo o caminho, sem saber
que o derradeiro juiz é o Destino.

Sendo assim, caminhemos ao relento,
colecionando acasos, gritos, tapas,
orgasmos, erros, risos satisfeitos,
e também vilanias e bondades,
cientes de que não somos perfeitos
nem sairemos num passeio calmo.
Haveremos de estar juntos no mundo
com gargalhadas, traições, acenos,
ódios e perdões falsos, temperados
por beijos doces, vícios e pecados,
trocados em estradas aleatórias
onde surgir a Vida era improvável.

Espero que nas noites intranquilas,
quando minha alma se descobre só,
perambulando triste e cabisbaixa,
um êxtase me encontre e reanime
com o presente de um credo sublime
que pode vir de um verso curto e mágico,
da música, das festas de menino
e sua alegria antiga, das palavras
com precisão, surpresa e confiança
salvadora que escuto dos amigos,
das melodias quentes da libido,
do vinho ou de enxergar aquele amor
clandestino, há tempos me habitando
como um fantasma que de tão sereno
não me assombrava nem eu o pressentia.

Porém, mesmo com todos bons convivas:
- sexo, amor, melodias, amizades,
alegrias antigas, versos, vinhos... -
nos instantes de intenso desespero,
afundo num inferno mais terrível
que o pavor construído num poema
convincente que expresse um sentimento
hostil e perigoso e sem saída.

Então, meu medo agarra o salvador
conceito de que mortos ficaremos
eternos e tranquilos, mas em vida
seremos temporários, alarmados
e imersos em receio e covardia.
Portanto, mesmo frágeis, caminhemos.


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