quarta-feira, 30 de julho de 2014

Secreto remédio


Remendar em segredo um verso falho
é o meu remédio contra o caos e o tédio.
Assim agindo, luto e venço o assédio
do maçante ou do trágico, e gargalho
debochado, sem pejo nem respeito.
Sou crente apenas neste deus privado
que co'uma frase já me põe armado
e vencedor num mundo tão mal feito.
Arrancar a palavra da armadura
que oculta seu anseio de costura
é trabalho infernal, mais que difícil.
Porém, se em volta explode enfado ou míssil,
danem-se todos. Faço até gracejo,
me inspiro no estilhaço e já versejo.

domingo, 6 de julho de 2014

Viver


Não ser no espelho nem dentro de si
(neles há a solidão). Estar no espaço
de fora, no exigente mundo externo.
Ver o espírito e a carne, e desejar
ambos. Aceitar-se ínfimo detalhe
nesta vasta atmosfera, e habitar - sóbrio -
teu árduo coliseu pleno de feras.
Fingir-se em fera injusta e sanguinária.
Saber que a luta é inglória, pois o fim
da batalha é silêncio, noite e terra.
Buscar com arte o cômico no trágico.
Ter o credo de si mesmo somente,
mas por covarde estender mãos pedintes
e trêmulas de medo ao deus do Tempo.