domingo, 20 de abril de 2014

A saída


Não tenho tatuagens. Mas possuo
cicatrizes. A mais funda, eu enfrento
batendo o coração. As outras, tento
disfarçar co'a risada que pontuo
as frases sorridentes mas vazias,
negadas nas pupilas camufladas
e oblíquas. Oh, alegrias proclamadas
por mim, quase nenhuma soaria
se houvesse na garganta uma cancela
de verdades barrando as assertivas
afirmadas, por cínico impudor,
que minto com pavor na minha cela.
Aflito, preso e pasmo na deriva,
encontro a liberdade só no amor.

terça-feira, 1 de abril de 2014

A beleza


Não folheia à pirita ou ouro a vida,
a ruga, o feio, o verso ... nem recobre
com tintura o cimento para que ele
imite o rico mármore. A beleza,
se existe, brilha por ser nua, livre
e simples: olha a praia e o horizonte,
com mar e céu e luz se penetrando
entre nuvens e vento; aprende o encanto
do círculo imperfeito, uno e distinto
como pérola, num pingo de leite;
contempla nas mulheres as jazidas
do afago, e aceita o sério Tempo rindo
como a coluna grega faz: mostrando
o belo da ruína sem disfarces.