terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Diana, a Deusa do Louvre.
















    
    Como divindade, é já aposentada;
ninguém lhe pede mais perdão ou graça
nem agradece ao êxito na caça
ou louva quem se nega a ser amada. 
    Se permanece imortal, é por ser
pedra; a ação do cinzel é o que a difere
de uma rocha qualquer. Por certo, fere
seu brio a perda do feroz poder.
    Porém, se já não tem penas cruéis
para punir adeptos infiéis,
também livrou-se da infernal proeza 
de gerir tantos rogos e chiliques.
    Adora a luz dos flashs e ama os clics
que a revalidam Deusa - por beleza.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Osso e carne, ou pedra


Sou de osso e carne, tendo em toda parte
paixão, desejo, medo, mágoa e sonho.
Se me comporto bem frente ao risonho
e o medonho, é devido ao zelo e à arte
de alguns sussurros e diversos brados.
Mas poderia ter nascido pedra;
um quedo mineral onde não medra
angústia, riso ou vincos do passado.
Nas horas boas, louvo meu destino
por ser humano e vivo, com direito
a gozar no intelecto, em mesa e leitos.
Já nas horas terríveis, me imagino
sendo pedra. Não que lhe almeje o "Nada",
mas porque invejo a fúria da pedrada.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Sonetoide manuelino branco


Eu te amava quem não eras. E tu
me amavas quem eu não sou. Se entre encontros
e atravancos duramos anos, foi
porque nos deleitávamos com todos

os pecados e taras razoáveis
que ambos sonháramos arder no corpo.
Mas agora percebo que, antes já
de conhecer-te, eu sempre desejara
ser o homem que vias e me amavas,
embora eu não o fosse nem fingisse,
porque não sei ser diferente. E tu,

creio ainda nem sabes qual mulher
eu te amei na paixão. É, Manuel:
"corpos se entendem, mas as almas não".