segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Fugaz


Como se o fósf'ro degolado fosse, 
ficando só a cabeça que inflamasse,
Paixão é fogo sem matéria. E a face
áurea que em teu delírio tinha o doce
fermenta-se em vinagre, nunca em vinho.
E os mitos erigidos nesse altar
se transformam em pasta, em visgo, em ar...
E então, um brilho pérfido e mesquinho
acende no olhar tido por gentil...
E o róseo despudor, que antes vertia
do perfume íntimo, no fim só cheira
à trapaça velhaca e ao ardil.
E o desejo sucumbe de asfixia
perante a nudez fétida e grosseira.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Soneto cinza, mas branco


Não creia no mesquinho julgamento

dos homens ou seus tolos tribunais
nem reze a nebulosas e improváveis
lendas em majestosos paraísos.
A despeito de todos vereditos
te condenando a mais injusta pena,
só no correr do Tempo há a sentença

que te absolve de forma eterna e justa
sem honorários, petições, recursos...
Portanto, seja apenas paciente,
e espera a nova leva de prazeres

e angústias que na luta por espaço
expulsarão teus atuais demônios;

"A única  Justiça  é o esquecimento".
 

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Havendo


Havia a dor. Mas não havia clima
para chorar. Vivia-se um ultimato:
o chicote do Tempo impunha fatos
sem saída e pisava-nos em cima.
Havia o furacão no olho e no entorno
a destruir família, casa, escola,
e empacotando o resto na sacola
do desastre, do abalo e do transtorno.
Havia os outros sempre nos olhando,
a sorrir com o escárnio satisfeito
diante das vergonhas humilhantes.
E havia um deus maléfico e nefando
plantando de antemão o desrespeito
nas trilhas que se abriram doravante ...