terça-feira, 26 de novembro de 2013

J. R. Marino (1951 - > 2013)


Morrerei ! Não por culpa da desgraça:
os raios não tiveram pontaria
e às turbinas faltaram avarias;
nem a bala perdida, por pirraça
ou por preguiça, achou minha cabeça;
tampouco a cirurgia corriqueira
encrencou por um erro de enfermeira;
nem na serra a neblina estava espessa,
ou do bujão vazava oculto o gás.
Agora, já não resta mais um prazo
ao azar, e será o fim trivial.
Faça a conta e concorde, se és sagaz,
com a resposta certa p'ra o meu caso:
"Morreu porque era velho!". Assim; banal.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

"O olhar de Verlaine"



O ar de implacável e áspero verdugo
serve de máscara à agonia e ao dano

das atitudes que encaraste o jugo
e às explosões de ódio feroz e insano.
Pois se carrasco foste, o vil pescoço   
dado ao patíbulo era mesmo o teu.
Ao mergulhares no âmago do poço
da paixão, encontraste a luz do breu, 
e a trazes no semblante em dois archotes  
de um sol negro que ao dia impõe a noite.
Tuas pupilas são como holofotes 
luzindo as mágoas de um verão no inferno,
a avisar que a paixão esconde o açoite
sob a esperança vã de amor eterno.

domingo, 10 de novembro de 2013

O Amor após a Hora Injusta


Ela organiza as flores com o esmero
de quem pinta um jardim. E por talento
acende velas que o vigor do vento
não apaga. Depois, sem desespero,
mas em doce respeito, e mesmo graça,
junta as palmas das mãos, se curva e reza;
cochicha a prece então, terna e sem lesa.
E ao se benzer parece erguer a taça
de vinho que com Deus brindasse a um trato
garantindo favores a seus mortos.
E eu, que não acredito em outros portos
além da morte, assisto, vivo e grato,
sua ternura após minha Hora Injusta.
E a terra infértil já não mais me assusta.
 
 
 


sábado, 2 de novembro de 2013

02/11/2013


Na selva intensa do dia” era um verso
meu que se extraviou na selva intensa
do dia. Esmigalhado sob a prensa
mesquinha dos encargos vis, submerso
na poeira vulgar das avenidas,
perdeu-se entre buzinas e alaridos.
Tão pleno de esperança e coloridos,
tão vital parecia à minha vida,
e ninguém da Polícia ou dos Achados
e Perdidos me deu qualquer notícia.
Sendo dois de novembro hoje, Finados,
faço um soneto tímido, e que a pia
chama acesa lhe possa ser carícia
ou reza humilde; mísera elegia.