sexta-feira, 16 de agosto de 2013

O matadouro


Na fúria do medo,
marcando o compasso

igual ao tambor
pulsante da morte,
as veias carregam
o sangue adiante
no seu desespero.  


No beco apertado
de troncos redondos,       
o olhar de temor
do boi bem demonstra
que o cérebro tosco
do bicho traduz
os vários mugidos
de angústia e pavor
na língua dorida
dos sem esperança
que escuta-se vindo
dos próprios irmãos
depois da cancela.

Em pânico humano,
cientes do fim,
embora acuados,
sem outra saída,
refugam, empacam,
seguram o passo,
tentando voltar.

Os cornos aflitos
redigem nas traves

grosseiros rabiscos
na única letra
que sabem fazer.

A escrita gravada,

grafitos em cunhas,
são como poemas
com versos de dor.

Serão despedidas?
Ou rogas pungentes
pedindo clemência?

Mas duros vaqueiros,

porteiros da morte,
trepados nas vigas,
lhes cravam nas ancas 
as varas pontudas,
forçando que marchem

enfim ao carrasco.


Sem ter esperança
de vida no céu
ou medo do inferno,
a mente do gado
não sabe de deus
nem teme o diabo,
mas quer ficar viva.

O boi vai morrer.
O boi tá com medo.
O boi é do medo.
O medo é do boi?
O medo é de todos
vaqueiros e bois,
autor e leitor.

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