quinta-feira, 21 de março de 2013

Livres


O desfile dos anos ainda mais a incrimina,
embora seja inútil revisar agora culpas
já dueladas outrora, em vãs e exaustivas minúcias

Não restaram relíquias; nenhuma carta, presente, 
livro, disco ou retrato. (Nem um refrão de música.) 
Mudei de casa. 
Troquei de carro, telefone, mobília e perfume
Nunca mais soube notícia.

Nem respeito ou gratidão
a tão massacrada roupa de cama eu tive:
a velhice do valente lençol de listras 
é um trapo de pano decadente
enxugando o chão.

Mas ao vê-lo hoje, percebi o rastro 
de fumaça e cinzas
passeando
 livres 
no museu do insano
coração.

quinta-feira, 7 de março de 2013

João


– O falecido não deixou bens 

O Atestado omite que perdera tudo.


Quando a Cigana dos Búzios
garantiu que seria rico novamente,
por fé e conveniência, passou a frequentar
as nuvens da vitória, sonhando o renascimento.

E melhor ainda: um novo passado.
Desta vez, bem sucedido, sem mágoa
das arapucas e do fracasso. Bastava fechar os olhos
(sem saber, treinava a morte).

Mas o tesouro que enterramos na cova 
tinha os dois bolsos e o coração
furados.

As nuvens são-lhe agora de madeira e mármore,
sendo a matéria-prima dos sonhos a terra escura.

Não ser eu também forte ou esperto

reforça o amor do nosso elo.
De santo, tinha só a fatal candura.