quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

"esmero"


Eu agradeço 
aos pais latinos (e ao tio galego)  
pelo vocábulo elegante que criaram e limparam,
ofertando-o de herança ao idioma português,
para dizermos
capricho, requinte, apuro, asseio...

Eu amo "esmero".

Esmero é palavra sucinta, suave e clara:

começa leve no som do primeiro "ê",

e logo o repete
na segunda sílaba,
como um eco,

mas já no "ô" final
se cala;

breve.

(Negou o exagerado "a",
 o ferino "i" "u" macabro.)

Repita baixinho comigo: 
      "es me ro"

Note que ela também vetou
as explosões consonantais:

primeiro, é um "sssss", 
soprado como se solicita 
silêncio;

depois, um curto eme,
que nasce contido e nasal 
mas logo se liberta nos lábios,

e, quase ao final, 
um mínimo erre; 

mas é o erre menos gutural 
de toda a fonética;
é só um toque,
- o toque da língua ralando a ponta do palato.

Repita novamente, agora:

               "es - me - ro"

Percebes também que a tônica, partindo-a ao meio,
lhe dá a nuance musical de um adágio delicado?

                "essss - mÊÊÊÊ - ro"

Pois é, 
- esmero - não deveria, 
jamais,
trajar maiúsculas,
merecia ser dita, 
sempre, 
em voz baixa, 

e pausadamente;

- no tom em que um fauno esperto, 
na cama, à noite, 
confessa no ouvido da amante
um vício secreto 
(e pede).

Agora, faça com o dedo no ar o gesto lento de escrevê-la com letra de mão: 
                                                  esmero

e observe como o dedo pintaria
em teu painel imaginário
uma trilha sinuosa e sensual
repleta de mistérios e floreios femininos,
contrariando o masculino gênero
que lhe atribui a gramática oficial.

Talvez por isto
a palavra esmero realce na frase
um certo predicado de carinho, paciência e dedicação
mais próprias do cuidado materno,
qualidades raras no mundo moderno,
utilitário, descartável e monetário 
como um turbilhão.

Também adoro
palavra "turbilhão",
mas por outros motivos...

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

São Paulo


Alguns lugares na cidade de São Paulo
escondem santuários ensopados 
de tão íntimas memórias,
que os episódios meus 
neles fermentam 
e entornam,

formando o vinho das minhas agonias e paixões.

Sempre que os avisto, curvo o espírito
bebo seu álcool e abro o coração,
saudando imaginários obeliscos
em silêncio, apego e solene respeito.

Mas sem medo,
porque são palcos decaídos,
com altares velhos e tomados pela selva
do desdém de todos outros atores,
onde  um crente retorna,
sozinho contra o Tempo 
blasfemo, protesto, venero 
e choro.