segunda-feira, 14 de maio de 2012

O poema


Foi vivo
                  
                    (bem melhor que este)
                                                
                                                           - o poema -

embora ainda aquém
do texto formal.

Sequer um verso, mesmo ilógico,
grafou-se em rascunho no momento do episódio;

todo ele viveu na emoção minha
ao ver a samambaia ungida pelo carinho
do sorriso e do olhar dela

num instante a esmo e fugaz.

 

Poema sem palavras,
sem som quase,
mas em excesso de luz e realidade
(mínimo rumor dedilhando a nuance do afeto
            no céu, na terra, na tarde).

Sem mais ruído que o bater das pestanas,
o volteio da cabeça,

com nada além do farfalho dos cabelos
caindo-lhe nos ombros
quando,
                 devido a um movimento,  
                                              
                                   o coque
                                                    
                                                se desfez.
Um poema sem.
Dizendo tudo.

Vivo no silêncio da rima

de um 
                    seu sorriso

com um
                    seu olhar.

6 comentários:

Gerana Damulakis disse...

Adorei, querido amigo. A ocupação do espaço foi instigante, fiquei curiosamente procurando a razão das palavras nas suas posições. Gostei.

João Renato disse...

Foi por ritmo, Gerana.
Raramente eu distribuo os versos no espaço, mas eu só resolvi o poema quando o ritmei com o espaçamento.
Além de que, em certo sentido, o poema tenta captar um vazio físico.

dade amorim disse...

Belo poema, João Renato.

Abraço.

K. disse...

ODE A GRATIDÃO

Grato pela palavra
que agradece.
Grato a grato
pelo
quanto essa palavra
derrete neve ou ferro.

O mundo parecia ameaçador
até que suave
como uma pluma
clara,
ou doce como pétala de açúcar,
de lábio em lábio
passa,
grato,
grandes a boca plena
ou sussurrantes,
apenas murmuradas,
e o ser voltou a ser homem
e não janela,
alguma claridade
entrou no bosque:
foi possível cantar embaixo das folhas.

Grato, és pílula
contra
os óxidos cortantes do desprezo,
a luz contra o altar da dureza.

Talvez
também tapete
entre os mais distantes homens
foste.
Os passageiros que disseminaram
na natureza
e então
na selva
dos desconhecidos,
merci, enquanto o trem frenético
muda de pátria,
borra as fronteiras,
spasivo
junto aos pontiagudos
vulcões, frio e fogo,
thanks, sim, gracias, e então
a terra se transforma em uma mesa:
uma palavra a limpou,
brilham os pratos e copos,
ressoam os talheres
e parecem toalhas as planuras.

Grato, gracias,
que viajes e que voltes,
que subas
ou que desças.
Está entendido, não
preenches tudo,
palavra grato,
mas
onde aparece
tua pequena pétala
escondem-se os punhais do orgulho
e aparece um centavo de sorriso.

(Pablo Neruda)


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Li agora pouco, antes de dormir, e lembrei de você. Quis vir aqui pra te contar. Nem sei se é um grande poema, nem sei se você gosta de Neruda, mas eu gostei e quis dizer que, ando incluindo poesia ao dia, e boa parte disso por incentivo teu. Também, mas não só por isso, o "grato". Beijo.

João Renato disse...

Obrigado, Dade.
Abraço,
JR.

João Renato disse...

Adorei, K,
E grato também fico eu a você.
Conheço pouquíssimo de Neruda, pois me concentro em autores brasileiros e portugueses.
Esse é um daqueles poemas que aproximam as pessoas, que se dirigem ao coração das pessoas.
Vou copiar e postar no meu outro blog.
Beijo grato,
JR.