sábado, 11 de fevereiro de 2012

Amor sem poema


Fosse paixão, e seria fácil:
bastavam meia dúzia de figuras de linguagem
inverídicas porém explosivas,
cuja pirotecnia e brilho fascinantes,
ofuscando o vazio por trás da fugaz alegoria,
já seduziriam as duas metades
incomunicáveis de todo casal triste,
e por isso crentes no desvario,
na aventura passional como saída.

Fosse apenas sexo, e palavras quentes,
bem sacadas pela carga de luxúria
e lírico impudor, beirando o obsceno,
já tornavam cúmplice o leitor,
devido ao carisma do erotismo,
que excita, nivela e arbitra
o mesmo destino
a puros e a libertinos.

E fosse por literatura, mais fácil ainda:
com um punhado de frases emotivas
acentuadas por parágrafos e espaços,
e tônicas alocadas com pontaria,
já certo equilíbrio e melodia no texto haveria;
depois, com a aliteração e as rimas internas
realçando o ritmo, as metáforas teriam graça,
frescor, um toque de humor, leveza e alegria,
– e, por fim, embaralhando tudo,
o poema ficaria ilógico e turvo,
parecendo profundo .

Mas sendo Amor, o poeta se complica;
se aquieta por sincero
e medita
confuso, repleto,
maravilhado...

Sem armadilhas,
sem palavras.