Hora Fria
Não tenho mais canções de fogo,
revolta ou tempestades;
meu outono contamina de tédio
o olhar, o gesto e a expectativa do sexo.
Agora,
até mesmo o encanto das manhãs ensolaradas
se apaga entre cortinas de cansaço,
anunciando que apenas certas horas da tarde
restarão potáveis para a especulação,
o desejo e a poesia,
enquanto as noites, antes selvagens,
se tornam trajetos lentos, com a imutável paisagem
do travesseiro e do lençol amarrotados de insônia,
silêncio e frio.
Findo o tempo das tentativas,
todos momentos já vividos se confundem na distância
e vão desbotando de esquecimento,
como se as singularidades de cada instante
se tivessem perdido pelo caminho
junto com suas emoções e julgamentos,
e todos aqueles dias fossem se igualando
a corpos de náufragos anônimos,
a boiar idênticos, na deriva de oceano.
Aceito a dor. Contemplo a dor.
Sua persistência garantiu-lhe um direito adquirido.
De tão antigo,
nosso convívio já tornou-se conjugal
e com aceitação igual aos postulados da geometria
ou à lei da gravidade.
Aceito a solidão. Contemplo a solidão.
Eu sou a solidão,
porque o meu invólucro de pele é a máxima prisão
da qual finjo fugir buscando-me em outros
pela amizade, o amor ou o sexo,
que se alcançados logo se dissolvem nos enganos
ou em fadigas da rotina
e seus desertos.
Muitos extremos meus partiram com o vento
ou morreram juntos ao fascínio dos excessos,
e os sobreviventes dirigem-se ao centro
tentando a paz, a fuga ou a amnésia das convicções,
porque se convenceram de que as situações execráveis
ou absurdas em que transbordamos de fúria
são tão passageiras quanto uma tarde de chuva,
assim como também nos dias quentes
os rios secam ou seguem para o mar,
independente de nossas angústias, lutas
ou inúteis indignações serem proclamadas
com a fé, a tristeza
ou a raiva com que fantasiamos
tantas palavras ditas.
Palavras cuja maior parte
só afrontou o silêncio, pois raras ficaram.
E mesmo essas, se provocaram
alguma alteração na superfície dos seres,
nossos âmagos resistiram e venceram
intocados.
Se olho meu horizonte à frente,
as tonalidades marcantes vão escurecendo
como o crepúsculo desinteressante
de uma jornada nua de epopéias,
onde o tom mais recente é o negro
temor do chamado da terra,
sem a grandeza ou brilho das Tragédias
e descrente de luz no abismo eterno.
Se vivo o que virá,
é devido à sede do que não foi,
pois o calor que resta ainda em mim
vem da lembrança das labaredas
que à época não vingaram.
É por elas que eu resisto.
segunda-feira, 12 de dezembro de 2011
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2 comentários:
Um poema de fôlego.
Sabe o que me deu vontade de chorar? Os 2 versos abaixo:
"Se vivo o que virá,
é devido à sede do que não foi,"
"É por elas que eu resisto"
uau! final arrebatador. Amei. :)
passei pra deixar um beijo de final de ano e encontrei essa beleza. Até esqueci os votos..rs.rs..
enfim, fica um beijo carinho.
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