segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Hora Fria


                                       A vida é apenas obscuro advérbio de tempo.
                                                              (Abgar Renault)


Não tenho mais canções de fogo,
revolta ou tempestade;
meu outono contamina de tédio
o olhar, o gesto e a expectativa do sexo.

Agora,
até mesmo o encanto das manhãs ensolaradas
se apaga entre cortinas de cansaço,
anunciando que apenas certas horas ao fim da tarde
restarão potáveis à especulação,
ao desejo e à poesia,
enquanto as noites, antes em cores selvagens,
tornaram-se inertes e pálidas,
com a imutável paisagem
do travesseiro e do lençol amarrotados 
de insônia, silêncio e frio.

Findo o período ativo de experiências e tentativas,

vários momentos vividos já se confundem na distância
conforme vão desbotando de esquecimento,

como se as singularidades, emoções e julgamentos de cada instante
fossem despencando nos solavancos do caminho do Tempo,
a ponto do balde com o resto dos dias náufragos
nomeado "O Passado"
quando for finalmente derramado
no oceano fora dos mapas
não forme mais que uma pequena mancha
de corpos e episódios 
mutilados, rotos e anônimos
boiando à mercê do apetite bestial da desmemória final,
em sua voracidade pelo refugo de gestos, migalhas de cenas,
por pedaços de frases, restos de versos; por escória...

Aceito a dor. Contemplo a dor.
Sua persistência garantiu-lhe um Direito Adquirido.
De tão antigo, nosso convívio já se tornou conjugal
e de aceitação igual aos postulados da geometria
ou à lei da gravidade.

Aceito a solidão. Contemplo a solidão.
Eu sou a solidão. E assim sou

porque o meu invólucro de pele é a máxima prisão
da qual finjo fugir buscando-me em outros
pela amizade, o amor ou o sexo,
que se alcançados logo se dissolvem nos enganos
ou em fadigas da rotina
e seus desertos.

Muitos extremos meus partiram com o vento
ou acompanharam o enterro do fascínio dos excessos
sem retornarem ao desconforto das duras casamatas,
e os sobreviventes dirigem-se ao centro
tentando a paz, a fuga ou a amnésia das convicções,
porque se convenceram de que as situações execráveis
e tão absurdas que transbordamos de agonias e fúrias
são tão passageiras quanto uma tarde de chuva,
assim como também nos dias quentes
os rios secam ou seguem para o mar,
independente de nossas angústias, lutas e indignações

serem proclamadas com emoções de fé, tristeza ou raiva 
que não influem nos eventos
e ainda sujam com sentimentos a isenção 

e a pureza das palavras.

E para que dizer tantas palavras?
A maior parte delas só afrontou o silêncio,
pois raras ficaram. E mesmo estas, 
se alteraram a superfície dos seres,
nossos âmagos resistiram e venceram
intocados.

Se olho meu pequeno horizonte à frente,
as tonalidades marcantes vão se perdendo
no crepúsculo desinteressante
de uma jornada anônima, áspera, dura
e também nua de gloriosas epopeias,
onde o recente tom predominante é o negro
temor do chamado da terra,
sem o brilho e as palmas do final das Tragédias
e descrente de luz no abismo eterno.

E até o dia de nele me despencar, resta 
a aleatória espera ...

Mas com esta clara sensação do passado
imitar o miúdo futuro à frente e se apequenar também,
pois tantas semanas, meses e anos vêm sumindo das décadas
que a minha biografia semelha a cidade destruída após a tempestade,
onde em meio aos escombros apenas eu restei de pé,
como uma seca haste de flor após perder as pétalas:
um mastro solitário sem bandeira alguma a tremular.

Em sendo assim, onde então habita agora o sentido?
O que me justifica? O que me amarra as mãos

e faz eu ainda vivo aqui ficar?
A memória do riso e dos beijos e algumas inesquecíveis
e inexplicáveis provas de amor e amizade atuais são paliativas.
Mas elas bastam? Ou é a minha permanência
apenas o fruto covarde do hábito?

Se vivo o que virá, é devido à sede do que não foi,

pois o calor que resta ainda em mim
vem de acender em sonhos as labaredas
que em sua época não vingaram

por culpa do meu azar ou da minha covardia.

É por elas que eu resisto.
 

2 comentários:

Gerana Damulakis disse...

Um poema de fôlego.
Sabe o que me deu vontade de chorar? Os 2 versos abaixo:
"Se vivo o que virá,
é devido à sede do que não foi,"

K. disse...

"É por elas que eu resisto"

uau! final arrebatador. Amei. :)

passei pra deixar um beijo de final de ano e encontrei essa beleza. Até esqueci os votos..rs.rs..

enfim, fica um beijo carinho.