segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Sentinelas


Quando as orquídeas da alegria
rompem as defesas do meu coração
realista,
gargalho a esbórnia de felicidade
que a inconsciência ou a ilusão
me propiciam.

Passada a euforia, regresso a mim,

e dos jardins que cuido no peito,
o das flores pisadas acaba sendo
meu prolixo canteiro

de versos doridos como as frases
que, gravadas em lápides, no cemitério ficam,
e lá mantêm vivas a agonia, a dor,
o desespero e o grito,
quando a viúva e o órfão,
após o enterro, regressam à casa,
à sua sina,
à sua vida e a seus ofícios.

Assim também – sentinelas grafadas
que me liberam ao gozo e ao riso – são
meus poemas sombrios.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Vivo


Em avenidas, ruas, bares e casas do nosso convívio, 

ele não está vivo mais.

E quando insisto e procuro
a voz, a face e o forte olhar 
(de quem agora eu sei frágil)
naqueles locais,
a paisagem se desfoca,
vazia do morto que agora há.

Porém, sei que vivo ele está,
mas não por credo absurdo.

Vivo ele está em mim quando súbito o reconheço
numa reação ou gesto meu casual,

e me acrescento às pérolas do colar
que - mais além da visão egoísta e parcial minha - 
descobre e reconstrói a pessoa
dele; 
própria e integral.

Liberta agora
da circunstância
de pai.