sexta-feira, 15 de julho de 2011

Vênus de Milo


                                                  Está ali, na perfeição redonda da oferenda.
                                                                (António Ramos Rosa)

Belíssima Mulher de Willendorf
em contornos quase atuais. Embora nos revele
os adolescentes seios e o rígido ventre
(ainda ilesos da maternidade), esconde
a carne íntima e seus pelos
sob a displicente toga,
que se derramando da cintura pelas pernas
encobre até a pele das coxas
fortes e apetitosas.

Mais que estátua de modelo esculpida,
o mármore capta, sob a pose estática,
a argúcia nata de uma fêmea adulta,
que no casto ar de fortuita ingenuidade
edifica e camufla seu feminino pedestal.

No Louvre, 
lembra um Monte Everest
reinando branca sobre cabeças e flashes
do público; 
tão perfeita e completa
que a mutilação do corpo até parece
intencional.

Tanto assim é que a chuva de focos,
olhares e dedos aponta encantada ao torso
de braços grosseiramente amputados
e lá detém-se enfeitiçada,
desprezando todo o resto;
desdenha até do rosto
de nariz clássico e delicados lábios
que, emoldurados em cabelos presos
por um coque e uma tiara (que ninguém repara),
dão o mítico traço grego
às linhas altivas da face.

Por certo que o fascínio à sua anatomia
aleijada
não resulta de piedade dos turistas.
Talvez derive do espanto da sua beleza
ser tanta que apequena a penosa anomalia,

ou antes seja mesmo a ausência dos braços
– defensivos e supérfluos no desfrute 
que justo a encaixa num ícone masculino
de mulher ideal.

2 comentários:

Lara Amaral disse...

Nossa, muito bom! A estátua agora é viva em seus versos.

Beijo.

João Renato disse...

Oi, Lara,
Não é por acaso que ela é famosa
Beijo,
JR.