sexta-feira, 15 de julho de 2011

Vênus de Milo

Belíssima Mulher de Willendorf
em contornos quase atuais. Embora nos revele
os adolescentes seios e o rígido ventre
(ainda ilesos da maternidade), esconde
o pelo e a carne íntima sob a displicente toga,
que se derramando da cintura pelas pernas
encobre até a pele das coxas
fortes e apetitosas.

Mais que estátua da modelo esculpida,
o mármore capta a pose majestática
e a argúcia da femea adulta,
que do casto ar de inocência e ingenuidade
edifica e camufla seu feminino pedestal.

No Louvre, lembra um Monte Everest
reinando branca sobre cabeças e flashes
do público; tão perfeita e completa
que a mutilação do corpo até parece
intencional.

Tanto assim é que a chuva de focos,
olhares e dedos aponta encantada ao torso
de ombros grosseiramente amputados
e lá detém-se enfeitiçada, desprezando todo o resto;
desdenha até do rosto
de nariz clássico e delicados lábios,
que emoldurados em cabelos presos
por um coque e uma tiara
dão o mítico traço grego
às linhas altivas da face.

Porém, é certo que o fascínio à sua anatomia
aleijada
não resulta de piedade dos turistas.
Talvez, derive do espanto de que sua beleza
suplanta a penosa anomalia,
ou, antes, seja mesmo a ausência dos braços
- defensivos -
que justo a encaixa
num ícone masculino de mulher ideal.


2 comentários:

Lara Amaral disse...

Nossa, muito bom! A estátua agora é viva em seus versos.

Beijo.

João Renato disse...

Oi, Lara,
Não é por acaso que ela é famosa
Beijo,
JR.