sábado, 30 de julho de 2011

Encontro com Rilke


– Tarde de verão –
teu crepúsculo inunda o mundo
lentamente como o leito escuro
de um rio imenso
que invade e afoga
a minha vida e o horizonte
na água da descrença.

No parque,
a estátua sonolenta de Rilke
desceu do pedestal e boceja escondida
entre as árvores
onde a última cigarra solitária
se cala,
também cansada de implorar
uma companhia.

Os pássaros acasalados retornam cantando ao ninho,
felizes da jornada conjugal no domingo de céu quente,

e eu me despeço das promessas
não cumpridas pelo sol
que se dissolvem nas sombras
e se perdem na solidão do mormaço,

sem que nenhum anjo afete o silêncio
no entorno do banco
onde sozinho

sou.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Vênus de Milo


                                                  Está ali, na perfeição redonda da oferenda.
                                                                (António Ramos Rosa)

Belíssima Mulher de Willendorf
em contornos quase atuais. Embora nos revele
os adolescentes seios e o rígido ventre
(ainda ilesos da maternidade), esconde
a carne íntima e seus pelos
sob a displicente toga,
que se derramando da cintura pelas pernas
encobre até a pele das coxas
fortes e apetitosas.

Mais que estátua de modelo esculpida,
o mármore capta, sob a pose estática,
a argúcia nata de uma fêmea adulta,
que no casto ar de fortuita ingenuidade
edifica e camufla seu feminino pedestal.

No Louvre, 
lembra um Monte Everest
reinando branca sobre cabeças e flashes
do público; 
tão perfeita e completa
que a mutilação do corpo até parece
intencional.

Tanto assim é que a chuva de focos,
olhares e dedos aponta encantada ao torso
de braços grosseiramente amputados
e lá detém-se enfeitiçada,
desprezando todo o resto;
desdenha até do rosto
de nariz clássico e delicados lábios
que, emoldurados em cabelos presos
por um coque e uma tiara (que ninguém repara),
dão o mítico traço grego
às linhas altivas da face.

Por certo que o fascínio à sua anatomia
aleijada
não resulta de piedade dos turistas.
Talvez derive do espanto da sua beleza
ser tanta que apequena a penosa anomalia,

ou antes seja mesmo a ausência dos braços
– defensivos e supérfluos no desfrute 
que justo a encaixa num ícone masculino
de mulher ideal.