domingo, 12 de junho de 2011

Paulistana Tróia - 25/01/2011

E porque levanto aqui meu obelisco
e suporto minhas ruínas,
farei hoje uma homenagem ao aniversário
da cidade, assinalando a trajetória
das perenes agonias e euforias
lacradas no tesouro sagrado
da memória:

nos marcos da minha escalada,
embora lembre agora o preço pago,
fincarei apenas uma estaca,
porque só quando o boi de carga para
toma ciência do peso do carro
e da cangalha,

mas em cada palco onde a maldade
e a traição cravaram seu punhal
nas minhas costas, porei uma placa
forjada com o bronze do meu ódio,
acusando o autor da emboscada,

e em cada poço onde ao gozo
das paixões me lambuzava,
com o eco dos gemidos de prazer,
farei no melhor mármore
uma estátua pornográfica,

para que os anônimos cá nascidos,
e mais ainda os vindos de fora,
desfilando agora seu sorriso
nos perfumes do dinheiro
ou carregando sua tragédia
entre os pregos da pobreza,
reparem as cicatrizes no asfalto
e na calçada:

são nódoas indeléveis do meu sangue
e meu esperma, do meu pranto e meus suores;
são as pistas do roteiro
que, cá dentro, comovido eu relembro,
e honrado ou ressentido
comemoro,

já o fedor que te importuna, transeunte,
não me orgulho nem celebro, mas não nego
que é do rio da sarjeta das minhas vilanias
e da carniça dos que ataquei como um abutre;

por isso tudo, São Paulo é uma Tróia
construída com pedras de muralhas
que se rendem só quando dão e cobram,
a cada um, o seu cavalo, a sua alma
e a sua história.

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