segunda-feira, 27 de junho de 2011

Pirita


É vã
a emoção do poeta que considera
ter concluído um poema bom,

pois igual à banana que apodrece
logo após sua doçura máxima,
também seu cacho de palavras,
de maduro, estraga rápido
e caminha à podridão.

E o autor, que do seu verso teve
efêmeros orgulho e apreço, 
retorna operário
à obra imperfeita.

domingo, 12 de junho de 2011

Paulistana Troia - 25/01/2011


E porque levanto aqui meu obelisco
e suporto minhas ruínas,
farei hoje uma homenagem 
ao aniversário de São Paulo, 
assinalando a trajetória
das perenes agonias e euforias,
lacradas e vivas no tesouro sagrado
da memória:

nos marcos da minha escalada,
embora lembre agora o preço pago,
fincarei apenas uma estaca,
porque só quando o boi de carga para
toma ciência do peso do carro
e da cangalha,

mas em todo palco onde a maldade
e a traição cravaram seu punhal
nas minhas costas, porei uma placa
forjada com o bronze do meu ódio,
acusando o autor da emboscada,

e em cada poço onde ao gozo
das paixões me lambuzava,
com o eco dos gemidos de prazer,
farei no melhor mármore
uma estátua pornográfica,

para que os anônimos cá nascidos,
e mais ainda os vindos de fora,
desfilando agora seus perfumes
na doce via do árduo dinheiro,
ou arrastando amargos queixumes,
lutando ou deitados na pobreza,
reparem as cicatrizes no asfalto
e na calçada:

são nódoas indeléveis do meu sangue,
do meu pranto e meu esperma, 
são a baba do meu riso e respingos de suores;
são as pistas do roteiro que, por dentro,
comovido eu relembro, e honrado ou ressentido
comemoro

(já o fedor que te importuna, transeunte,
não me orgulho, não ostento nem celebro, 
mas não nego que é a sarjeta da minha vilania,
onde a carniça dos fracos apodrece,
rasgados pela minha espada de bárbaro
ou traídos por meu oportunismo de abutre).

Por isso tudo, São Paulo é minha Troia,
construída com pedra de muralhas
que após vencidas logo retornam,
e todo dia me dão e me cobram
a minha alma, o meu cavalo 
e a minha história.