sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Confissão


Jamais encontrei na minha alma
nenhuma porção tua que fosse inata.
Tu és sempre calma
como um jarro de água,
e eu por dentro
sou metade um deserto áspero,
tendo no outro lado
um pântano imenso.

Por isso, quando beijo
tua mais gostosa parte,
deixe que eu me alimente
da tua ternura líquida,
que rega, cura e limpa
com secreção bendita
meu coração descrente.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Comunicado


Não ! Muito Obrigado !
Estou satisfeito!

Se aí fora o mundo é claro, vasto e imenso,
aproveitem todo o paraíso e sejam felizes.
Mas eu rejeito os seus convites,
pois cá dentro, tudo é mais profundo,
colorido e divertido.

(E se expresso um certo alheamento,
é devido ao prazer 
que sinto estando só comigo.)

É claro que pratico um convívio alegre
no amor e no sexo, tenho amada, amigos
e reverencio certos ídolos.

Mas não acreditem que a delicadeza e o sorriso
ao resto concedidos sejam sinceros;
se não os deprecio, tampouco os considero,
e preferia estar sozinho.

Escalar em sonhos certos picos
ou mergulhar fundo em meus abismos
para de ambos regressar com versos
me fascina.

É o doce vício que mais me diverte.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Julho/1992


...,  e ficamos dispersos:
já não eram mais
a mesma nuvem, mesma árvore,
mesma onda, estrela ou casa
que aliciava nossos sonhos,
atraía nossos olhares.

Embora ainda de mãos dadas,
um intervalo de silêncio crescia
entre os dedos e palmas.

Logo,
também a força e a sorte
foram,
aos poucos,
abandonando
nossos fatos e acasos:

se antes vencíamos todos
e saíamos incólumes,
já então, as pessoas se tornavam
perigosas, atraentes,
saborosas e fortes...

Devagar, ao universo verdadeiro retornávamos.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Poemas

Não acredite em meus poemas.
A linguagem deles foi tão escovada
que a dor e a agonia brilham;
a fúria mais cruel e dura
até se torna justa,
e o amor que não sinto parece lindo.

Jamais me entrego ou digo a verdade.
Posso jurar tudo, mas minha palavra
é cínica. (Eu minto por uma rima.)
Sofismo entre armadilhas;
invento fugas, ciladas, falácias...
e depois retorno com capricho,
apagando as trilhas.

Nuvens.
Todos meus poemas são nuvens,
que ora escondem sol,
ora escondem chuva.