quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Poema de Vento e Sal


A memória reteve apenas
o raio de sol dourado na coxa dela molhada,
na praia, ao meu lado, como pétala
bronzeada, dentro d’água.

Mas a lembrança do miúdo fragmento
me resgatava tanto de submersos
brilho, energia e sentimento,
que a poesia os percebendo decidiu
          completar os fatos
          para contá-los.

          E os pensamentos, horizontes,
          os sonhos e vontades que emergiram
          foram se agregando
                    ao entorno que eu lembrava:

                    os pássaros e a maresia,
                    o branco da areia, as ondas,
                    o ronco e a linha azul do mar ...

Então, o poema incorporou à tarde o imaginário:
                   
                    os olhares certeiros, a coragem até à nudez,
                    o abraço ... o beijo ... a liberação do desejo...
                    a viagem no torpor abismo incêndio e voragem.


E onde antes só havia luz, mar,
                                        pele de coxa
                                        e o resto de um olhar,

uma fantasia sexual
                                   com posse, ato, gemido, espasmo
                                   e o creme do gozo consumado
                                   a diluir-se em formas abstratas 
                                   na água do mar revolta e salgada

invadiu a paisagem
se impondo como lembrança
verdadeira do episódio,

                                   tão real quanto as ondas 
                                   que rebentavam sobre nós.




Assim a poesia apropriou a intensidade
do instante original,
e levantou – quase que por si só –
estes versos de vento
                                                       e de sal.

Um comentário:

Gerana Damulakis disse...

Beleza beleza beleza!
E o final manteve o mesmo nível. Parabéns, foi show.