quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Ars Poetica


Vivemos juntos: um dentro do outro.
Mas, de manhã, eu o troco por um salário
e mergulho nos convites da cidade, 
entre tudo e todos. Porém de noite, 
após o trabalho, somos só poema e poeta,
e com afeto pelejamos.

A poesia joga o seu anzol à vida atual
mais a de outrora. E quando ouro ela pesca,
recolhe só o brilho e me entrega,
para que o meu ofício conquiste o verso.
Assim, à questão da origem dela
ser ou não a inspiração, eu desvio
pelo acostamento e complico a discussão:

é o corpo do poema disperso no espaço
e retalhado no tempo, como arquipélago
acidental de fatos fictos e reais,
que permite ser trancado, se por cadeado
de fecho inspirado e chave original.

Para que siga tendo, a partir do fechamento,
a harmonia da forma e a tensão de dentro.

3 comentários:

Lara Amaral disse...

Belo ponto de vista. Vejo uma poiésis entranhada em vc.

Beijo.

dade amorim disse...

Sim, a fórmula aberta "como arquipélago disperso e acidental".
Lindo poema, João Renato.

Gerana Damulakis disse...

Fina ars poetica. Muito bom.