domingo, 3 de outubro de 2010

Inútil Profanação (quase bolero)


Quando acabamos, rasguei as cartas
e arranquei tuas fotos de todos porta-retratos.

E depois, voltei acompanhado de outras mulheres
aos mesmos lugares onde havíamos estado,
tentando apagar as lanternas que iluminavam na memória
o ardor do nosso gozo ou o clamor das nossas guerras.

E me refugiei no prazer com ganância,
amando ou comprando mulheres nas mesmas camas.
Não só por vingança, mas também para tapar
o eco, o cheiro e a tua lembrança
em todos lençóis que havíamos molhado.

E entre garrafas e gargalhadas abertas,
me lambuzei nos corpos, cobiças,
conversas e sonhos de todas elas,
pagando às putas completas ou inventando mentiras
e várias promessas para que as tolas e crédulas
repetissem na cama nossos duelos de sexo,
a fim de que não restasse intacta nenhuma pedra
de obelisco ou mausoléu daquelas orgias de entrega,

E prossegui cometendo os máximos novos ardores
que aprendia com mulheres de todos os rótulos
para que o meu choro sucumbisse ao cansaço,
e suas secreções, odores, suores e hálitos
me limpassem do corpo e do espírito
todo vestígio dos teus abismos íntimos
vivos em meus sentidos,
que me submetiam ao vício cíclico 
da recaída na tônica do teu precipício.

Mas após terem decorrido vários anos,
percebi que a despeito de tanta profanação,
minha vontade não conseguia blindar a tua ausência,
porque havia uma redoma no meu coração
garantindo eternidade a certos nossos momentos,
cuja grandeza, acima das mágoas, erros e julgamentos,
sobrevivia imune, invadindo às vezes o meu Presente
com um estandarte de lembranças daquele tempo.

E hoje então aceito que estes momentos 
de ambos 
permanecerão amando, 
juntos e apaixonados por toda existência,
  mas só lá; no êxtase daquelas cenas .
Enquanto nós seguiremos apartados,
sem tristeza, alarde, desejo ou vontade,
vivendo mais
 amores e pecados
em universos novos e maiores.

Mas algumas vezes arderemos
a saudade extrema dos fragmentos no passado,
que se iluminam
à luz do seu fogo-fátuo.




3 comentários:

dade amorim disse...

Bolero rasgado - e lindo, João Renato.

Abração.

Gerana Damulakis disse...

Uma história, na verdade. E quanto sentimento forte, versos densos, passagens incríveis. Adorei, vou reler um certo trecho que está aqui na minha cabeça. Sua poesia faz isso, fica.

Lara Amaral disse...

O amor que não se contempla na carne, mas se sacia temporariamente nela. Uma hora o espírito entende...

Vc falou tanto, eu diria: falou tudo o que se precisava saber desse assunto. Mas tão pouco sei que não posso afirmar. De toda forma, texto de uma completude sem igual, e lindíssimo.

Abraço.