sexta-feira, 22 de outubro de 2010

A casa eterna


Havia um corredor com mais ou menos
um metro e meio de largura,
onde o assoalho, que antes alternara
um taco escuro e outro claro,
restara assimétrico e deformado
após sucessivas e más reformas,
como se avisasse ao ingênuo nele pisando
que suas rotas seriam estradas
onde os consertos tornavam-se defeitos.

A cor das paredes era desbotada
combinando com o reboco fraco,
cuja alvenaria de barro tão rala
esfarelava a qualquer batida,
assim como eram frágeis
as imprescindíveis certezas 
que a família inventara
tentando lavar suas vidas 
em mentiras habitáveis.

O forro alto não era de laje,
mas de pequenas e regulares ripas
de madeira trabalhada e pintada
de alguma tonalidade perdida,
que se no passado fora cinza,
amarela, branca ou bege,
envelheceu se indefinindo
da mesma palidez esmaecida
que tem na cor da pele
os moribundos que expiram
no terror e agonia da morte,
cientes  do rumo ao inferno.

Suas portas davam para salas, quartos
e banheiros possuídos do mesmo espírito,
pois não era só o forro do teto,
as paredes, cores e o piso que eram terríveis;
a casa toda exalava um cheiro
de umidade velha e bolor de pano sujo
misturado ao fedor dos destinos culpados
e condenados à humilhação, à derrota
à vergonha e ao fracasso.


*     *     *     *     *     *     *     *     *


Muito quente, imóvel e sem vento,
como costumam ser os dias secos
e arenosos no bairro da Tijuca,
na cidade do Rio de Janeiro,
o Tempo estancou naquela tarde
do mês de dezembro num ano antigo,
e se mantém paralisado até agora
comigo.

Era domingo:

Naquele momento, flutuavam fora raros ruídos:
o som dum rádio, uma buzina de carro
e o latir do cachorro no quintal do vizinho.
No corredor, onde no escuro da noite
paredes e trincos, fantasmas, portas,
tacos e o teto estalavam tentando
furtar minha alma,
tudo estava claro, mudo, quieto e imóvel.

Emparedado no silêncio, um menino caminhava...


*     *     *     *     *     *     *     *     *


Há muitos anos o imóvel foi demolido,
e já morreram a maioria dos contemporâneos
desse dia. Mas sobrevivem tacos, fantasmas,
estalos, salas, quartos, o corredor, o teto,
o silêncio e o fedor da casa.

Em certos caminhos, eu reencontro o menino.
Noutros, o destino.

6 comentários:

Lara Amaral disse...

Gosto muito da sua poesia narrativa rica em detalhes, em metáforas... rica.

Abraço.

João Renato disse...

Oi, Lara,
Fui no seu blog devolver a visita e ler sua poesia, e achei seus poemas ótimas narrativas.
Mas, diferente dos meus, falam de um tempo quase presente.
Enquanto que os meus são de angústias antigas.
JR.

dade amorim disse...

Triste e sofrido poema, quase um quadro dessa casa inóspita.
Mas por favor, João, não fale assim da Tijuca onde nasci e me criei sem secura nem dias arenosos - ao contrário, quase sempre sentindo uma brisa fresca e vendo o verde em volta :)
Um abraço.

João Renato disse...

Dade,
A Tijuca no poema é a inserção de uma referência poética minha (pessoal), e não, necessariamente, o bairro real.
Embora morando há 35 anos em São Paulo, nasci e fui criado lá, e também tenho outras boas lembranças.
Aliás, em passant, estive lá no ano passado e fiquei impressionado com a decadência de toda aquela região. É incrível a deterioração da Tijuca, do Estácio, do Rio Comprido e do Catumbi.
Para mim, que só retorno esporadicamente, estão irreconhecíveis.
Abraço,
JR.

Gerana Damulakis disse...

Pungente! Final de mestre e narrativa poética de primeira.

Paulo Tuba disse...

Uma segura descrição, diferente de tudo que já vi, além de passar um tom poético seguro e correto. Em uma segunda parte do poema, o eu-lírico toma a voz e passa a evocar um quadro rememorativo de forma intensa e comovedora. Meus parabéns. Um abraço.