quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Ars Poetica


Vivemos juntos: um dentro do outro.
Mas, de manhã, eu o troco por um salário
e mergulho nos convites da cidade, 
entre tudo e todos. Porém de noite, 
após o trabalho, somos só poema e poeta,
e com afeto pelejamos.

A poesia joga o seu anzol à vida atual
mais a de outrora. E quando ouro ela pesca,
recolhe só o brilho e me entrega,
para que o meu ofício conquiste o verso.
Assim, à questão da origem dela
ser ou não a inspiração, eu desvio
pelo acostamento e complico a discussão:

é o corpo do poema disperso no espaço
e retalhado no tempo, como arquipélago
acidental de fatos fictos e reais,
que permite ser trancado, se por cadeado
de fecho inspirado e chave original.

Para que siga tendo, a partir do fechamento,
a harmonia da forma e a tensão de dentro.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

A casa eterna


Havia um corredor com mais ou menos
um metro e meio de largura,
onde o assoalho, que antes alternara
um taco escuro e outro claro,
restara assimétrico e deformado
após sucessivas e más reformas,
como se avisasse ao ingênuo nele pisando
que suas rotas seriam estradas
onde os consertos tornavam-se defeitos.

A cor das paredes era desbotada
combinando com o reboco fraco,
cuja alvenaria de barro tão rala
esfarelava a qualquer batida,
assim como eram frágeis
as imprescindíveis certezas 
que a família inventara
tentando lavar suas vidas 
em mentiras habitáveis.

O forro alto não era de laje,
mas de pequenas e regulares ripas
de madeira trabalhada e pintada
de alguma tonalidade perdida,
que se no passado fora cinza,
amarela, branca ou bege,
envelheceu se indefinindo
da mesma palidez esmaecida
que tem na cor da pele
os moribundos que expiram
no terror e agonia da morte,
cientes  do rumo ao inferno.

Suas portas davam para salas, quartos
e banheiros possuídos do mesmo espírito,
pois não era só o forro do teto,
as paredes, cores e o piso que eram terríveis;
a casa toda exalava um cheiro
de umidade velha e bolor de pano sujo
misturado ao fedor dos destinos culpados
e condenados à humilhação, à derrota
à vergonha e ao fracasso.


*     *     *     *     *     *     *     *     *


Muito quente, imóvel e sem vento,
como costumam ser os dias secos
e arenosos no bairro da Tijuca,
na cidade do Rio de Janeiro,
o Tempo estancou naquela tarde
do mês de dezembro num ano antigo,
e se mantém paralisado até agora
comigo.

Era domingo:

Naquele momento, flutuavam fora raros ruídos:
o som dum rádio, uma buzina de carro
e o latir do cachorro no quintal do vizinho.
No corredor, onde no escuro da noite
paredes e trincos, fantasmas, portas,
tacos e o teto estalavam tentando
furtar minha alma,
tudo estava claro, mudo, quieto e imóvel.

Emparedado no silêncio, um menino caminhava...


*     *     *     *     *     *     *     *     *


Há muitos anos o imóvel foi demolido,
e já morreram a maioria dos contemporâneos
desse dia. Mas sobrevivem tacos, fantasmas,
estalos, salas, quartos, o corredor, o teto,
o silêncio e o fedor da casa.

Em certos caminhos, eu reencontro o menino.
Noutros, o destino.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Amor Barroco I

 
E se quando solitário
cantei meu desespero
com ordem, cuidado,
propriedade e quase carinho,
queria agora cantar Amor
com maior esmero,
mas me perco no caminho
sem achar palavras nem ideias
que com fé e segurança
conduzam meu verso
por este redemoinho doido 
que me desarma
consciência, corpo e alma,
enquanto embaralha
as certezas e verdades
que eu antes afirmava.

Se na agonia antiga,
de tristeza e melancolia,
eu seguia sério, ordeiro
e obediente numa trilha
asfaltada em desalento,
o atual sentimento
se libertou e ricocheteia
pelo meu coração adentro
com o padrão e a pontaria
de um foguete cego,
sem controle e sem juízo,
que ora me afunda no inferno
ora me leva ao paraíso.

 

quinta-feira, 14 de outubro de 2010


Não nasci propenso à luta
nem às glórias da vitória;
me falta amor à batalha
e voragem de aventura.
Quando sonho algo que valha,
eu mesmo faço a muralha
que me impede e me atrapalha.
Por isso, sempre que venço,
não sou feliz; sou surpreso.
Sigo quieto o meu destino,
e se enfrento certos riscos,
não gozo nos desafios;
são imposições da vida
que encaro sem covardia,
mas sem brilhos de heroísmo.

Desse jeito vou vivendo,
e meu riso é verdadeiro
quando nasce da alegria.
Mas tentar fugir da briga
suja a minha biografia.
Não fico feliz com isso,
mas tampouco em desespero,
e quem vá à rua comigo
nem notará o meu segredo.
Salvo se do mesmo tipo,
cujo olhar já denuncia
que também não sente medo
de aceitar os seus limites,
e que estando alegre ou triste,
ama a vida e tem defeitos.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Poema de Vento e Sal


A memória reteve apenas
o raio de sol dourado na coxa dela molhada,
na praia, ao meu lado, como pétala
bronzeada, dentro d’água.

Mas a lembrança do miúdo fragmento
me resgatava tanto de submersos
brilho, energia e sentimento,
que a poesia os percebendo decidiu
          completar os fatos
          para contá-los.

          E os pensamentos, horizontes,
          os sonhos e vontades que emergiram
          foram se agregando
                    ao entorno que eu lembrava:

                    os pássaros e a maresia,
                    o branco da areia, as ondas,
                    o ronco e a linha azul do mar ...

Então, o poema incorporou à tarde o imaginário:
                   
                    os olhares certeiros, a coragem até à nudez,
                    o abraço ... o beijo ... a liberação do desejo...
                    a viagem no torpor abismo incêndio e voragem.


E onde antes só havia luz, mar,
                                        pele de coxa
                                        e o resto de um olhar,

uma fantasia sexual
                                   com posse, ato, gemido, espasmo
                                   e o creme do gozo consumado
                                   a diluir-se em formas abstratas 
                                   na água do mar revolta e salgada

invadiu a paisagem
se impondo como lembrança
verdadeira do episódio,

                                   tão real quanto as ondas 
                                   que rebentavam sobre nós.




Assim a poesia apropriou a intensidade
do instante original,
e levantou – quase que por si só –
estes versos de vento
                                                       e de sal.

domingo, 3 de outubro de 2010

Inútil Profanação (quase bolero)


Quando acabamos, rasguei as cartas
e arranquei tuas fotos de todos porta-retratos.

E depois, voltei acompanhado de outras mulheres
aos mesmos lugares onde havíamos estado,
tentando apagar as lanternas que iluminavam na memória
o ardor do nosso gozo ou o clamor das nossas guerras.

E me refugiei no prazer com ganância,
amando ou comprando mulheres nas mesmas camas.
Não só por vingança, mas também para tapar
o eco, o cheiro e a tua lembrança
em todos lençóis que havíamos molhado.

E entre garrafas e gargalhadas abertas,
me lambuzei nos corpos, cobiças,
conversas e sonhos de todas elas,
pagando às putas completas ou inventando mentiras
e várias promessas para que as tolas e crédulas
repetissem na cama nossos duelos de sexo,
a fim de que não restasse intacta nenhuma pedra
de obelisco ou mausoléu daquelas orgias de entrega,

E prossegui cometendo os máximos novos ardores
que aprendia com mulheres de todos os rótulos
para que o meu choro sucumbisse ao cansaço,
e suas secreções, odores, suores e hálitos
me limpassem do corpo e do espírito
todo vestígio dos teus abismos íntimos
vivos em meus sentidos,
que me submetiam ao vício cíclico 
da recaída na tônica do teu precipício.

Mas após terem decorrido vários anos,
percebi que a despeito de tanta profanação,
minha vontade não conseguia blindar a tua ausência,
porque havia uma redoma no meu coração
garantindo eternidade a certos nossos momentos,
cuja grandeza, acima das mágoas, erros e julgamentos,
sobrevivia imune, invadindo às vezes o meu Presente
com um estandarte de lembranças daquele tempo.

E hoje então aceito que estes momentos 
de ambos 
permanecerão amando, 
juntos e apaixonados por toda existência,
  mas só lá; no êxtase daquelas cenas .
Enquanto nós seguiremos apartados,
sem tristeza, alarde, desejo ou vontade,
vivendo mais
 amores e pecados
em universos novos e maiores.

Mas algumas vezes arderemos
a saudade extrema dos fragmentos no passado,
que se iluminam
à luz do seu fogo-fátuo.