quarta-feira, 22 de setembro de 2010

O amor que não houve


Quando acordo sozinho no meio da noite,
às vezes, o amor que não houve regressa, 
repleto de certezas e promessas
de alegria e felicidade completas.
- O amor que não houve perdura
como reserva do futuro -
e quanto mais distante no tempo
ou do bom senso, mais dá a impressão
de prosseguir no coração.

No amor que não houve,
teríamos vivido tantas coisas:
sairíamos de madrugada numa viagem sem pressa
vendo o sol nascer atrás das serras,
aquecendo vales, riachos e florestas,
e chegaríamos ao destino cobertos 
por um céu tão tranquilo e confiante
que suas nuvens quietas
absolveriam nossas culpas mais secretas.

No amor que não houve,
veríamos as pinturas mais tocantes
ao som das cantatas de Bach
tocadas pelas melhores orquestras;
mergulharíamos num mar
de praias desertas
e águas sempre quentes,
ou subiríamos montanhas de neve
para contemplar paisagens singelas,
onde um feixe de luz sagrado
transformaria em virtudes
todos nossos pecados.

No amor que não houve,
seríamos nossos bastantes confidentes,
e nossa compulsória penitência
seria eu te comprar joias, rosas e perfumes
e você me dar livros, quadros e outros presentes.
Passearíamos à pé, de barco ou de charrete
por canais dolentes e ruas suaves,
maravilhados com a arquitetura,
e provaríamos exóticos sabores
em aconchegantes restaurantes,
para depois ir namorar entre os odores
de jardins inundados de flores.

No amor que não houve,
iríamos dançar todas as noites,
e nos palácios e castelos em festas,
beberíamos vinhos delirantes
entre as juras de amor mais totais e sinceras.
Amaríamos mais e melhor que os famosos amantes
se amaram em mitos, novelas, esculturas e telas,
aprimorando nossos antigos prazeres e vícios
e criando outros, mais íntimos, mais lascivos...
Nossos beijos e carícias seriam eternas,
macias, serenas, depravadas, obscenas,
eretas. abertas, plenas de secreção com esperma
e abençoadas de comunhão, respeito, prazer,
amor, paixão e amizade...

                    *                    *                    *

"Se tivéssemos tido a capacidade . . . "

Não ! Para cérebro !
Não busco justificativas, e menos ainda retaliações.
Agora, só quero o Sonho e a Imaginação.
- O amor que não houve rejeitou todo defeito -
nele, somos felizes sem arrependimentos
e vazios de culpa, erro e medo,
porque o destino de todo amor que não houve
é sonhar-se Amor Perfeito.

2 comentários:

Gerana Damulakis disse...

Será que meu comentário se perdeu? Eu contava do homem que disse que a mulher dele não precisou ser impossível para ser eterna.

João Renato disse...

Oi, Gerana,

Não sei o que houve. Fui ver agora, e não sei o que aconteceu.
Cliquei para publicar o comentário assim que o vi, mas ele não foi publicado.
Mandei publicar de novo agora, mas ele está informando um erro e não publica. Então, eu vou copiar e publicar como meu.
Um abraço


Os 2 versos finais já dizem tudo, perfeito é aquilo que não se realizou. Vou contar algo inesquecível (sempre conto isso, quando vejo relação com): no discurso de posse na Academia de Letras da Bahia, o escritor Guido Guerra dedicou algumas falas à sua mulher, dizendo que ela não precisou ser impossível para ser eterna (já perdi as palavras exatas, mas era isso).
Gostei imensamente do poema.