terça-feira, 14 de setembro de 2010

Memória Delicada


Quando contei do câncer e do enterro
seus olhos morreram
após arderem de espanto e medo:
- "sequer soubera da sua doença !" -
Então, se trancou para que nada fugisse,
pois dentro dele ela ainda gozava
aquele prazer e a vida.

Do seu jeito, confirmava calado
a veracidade das suspeitas e comentários
vazados, e por ele logo negados
em conversas e brigas que eu presenciara.

Agora, os convenientes problemas do sítio
ou do carro na estrada de terra
e outros disfarces
até poderiam dar lugar
aos fatos insinuados na cachoeira
e consumados na varanda do pomar,
com a rede verde
e os secretos detalhes íntimos
que após a morte dela,
de repente, pertenciam todos
só a ele.

Tentando penetrar em seu silêncio,
perguntei baixinho, fingindo desconhecimento
e com receio: - "vocês foram amantes ?" -

Indiferente, ele continuou com ela,
sem me admitir nos eventos secretos
havidos no pomar de limas da pérsia.

3 comentários:

J.G. disse...

Num momento de vagar, vim ler a sua poesia. As suas emoções conseguiram chegar até este recanto do meu Alentejo.
Abraço

Gerana Damulakis disse...

Uma história em versos. E que versos: densos, fortes; matéria de 1ª.

dade amorim disse...

Emocionante e bem realizado, João Renato. Um lindo poema.