quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Alguém já definiu Poesia como sendo "emoção recolhida em tranquilidade".

Como não estou tranquilo para recolher minhas emoções, tenho escrito poemas muito próximos da realidade imediata; poemas que ainda não são poesia.

Quem sabe, se eu escrevê-los mais tarde o sejam ?

Então, vou republicar poemas antigos, nos quais tenho trabalhado.


Epílogo

Deste amor, as ruínas da calamidade afetiva,
caídas pelo caminho, tornarão interditos,
por um certo período, todo convívio e o trânsito regular
em seus vários palcos, roteiros e sítios.

Então, terá início a derrubada do seu altar;
a começar por fotos, músicas, presentes e objetos
que formaram elos e deram arrimo religioso
à mística incerta dos sonhos e credos.

Quanto à reserva acumulada de agonia, mágoa, alegria e gozo,
a vagarosa enxurrada de horas cotidianas
bem saberá afogá-la num deserto de águas
distintas de saudades, lembrança ou raiva.

(Para que em certos versos ambos não se reconheçam mais,
os identificáveis pormenores concretos e reais
serão suprimidos ou adulterados,
passando o poema a expressar o amor universal e abstrato.)

Ao ceticismo caberá manchar a lisura
e a relevância dos segredos íntimos,
sussurrados com o olhar esquivo de vergonha ou culpa
nos intervalos da volúpia, em noites confidentes.

E no futuro, as persistentes heranças ínfimas
que ressurgirem do fundo de armários e gavetas
serão encaradas com expressão de rosto isenta,
despida de curiosidade, reverência, medo ou pudor.

Assim, o ardor de água, terra, vento e fogo deste amor
ressuscitará do seu canteiro de feridas flores,
e sua grandeza não mais será a ilusão do estrago irreparável,
mas toda beleza e dor vividas naquela viagem.

Um comentário:

Gerana Damulakis disse...

Muito inglesa a necessária tranquilidade de Wordsworth para o fazer poético.
Com pensamento semelhante,o nosso João Cabral dizia que, se eram flores o que foi escrito de noite, pela manhã seriam fezes. E disse em versos, esqueci o título do poema.
Fiquei detida especialmente na estrofe que destaco:
"E no futuro, as persistentes heranças ínfimas
que surgirem do fundo de armários e gavetas
serão encaradas com expressão de rosto isenta,
despida de curiosidade, reverência, medo ou pudor".