terça-feira, 13 de julho de 2010

Elegia de mim

                                                    
                                                       "Eu estou aqui, e um dia já não estarei."
                                                             (A Morte, segundo Saramago)
É fim de tarde
e minha noite se aproxima.

Porém eu não queria tristeza
na derradeira hora;
prefiro que seja súbita 
ou que o medo preencha
o intervalo entre a agonia da doença
e a ausência do existir.

Mas ficar triste eu não queria,
porque tristeza não consola.

A tristeza é a ave negra
que em sobrevoo mórbido
me espreita a carniça
e de forma arrogante despreza
as glórias e mágoas
da minha medíocre Odisseia,

e piando me informa
que tanto a real biografia
quanto a vida sonhada
perderão os unguentos na parte sofrida
e o perfume da carne devassa e quente
para que melhor na terra fermentem.

Sem que daí renasça vida alguma
que se aproveite.

2 comentários:

Gerana Damulakis disse...

A melodia da 2ª estrofe (6 versos com uma cadência espetacular), o tema presente, constante, como se mirado com lente cada vez mais apurada no desenrolar do poema e, enfim, aquele achado (na preferência do medo entre o estar cansado e o estar ausente). Olha, tiro meu chapéu: excelente poema!

João Renato disse...

Oi, Gerana,
Agradeço o comentário.
Mas eu sinto que o poema está incompleto e com excessos.
JR.