segunda-feira, 19 de julho de 2010

Republico um poema de uns dois anos atrás porque farei uma cirurgia complicada e com perspectiva lamentável.
Se tudo correr bem, qualquer dia eu volto.
Se não, esses 106 poemas são a maior parte do que eu tinha a dizer.
Abraços.
JR.



Epitáfio

Para quando a Morte quiser encaixotado
em terra, madeira, mármore e breu,
o corpo, a vida e os sonhos
do João Renato (que foram meus),
já deixo escrito o epitáfio conciso
de uma só palavra,
mas com duplo sentido;
pela condição de cadáver:
conclusão inevitável,
e pela vida passada: bravata
e souvenir do apogeu.
Assim, que se grave na lápide:
“Fudeu !”

terça-feira, 13 de julho de 2010

Elegia de mim

                                                    
                                                       "Eu estou aqui, e um dia já não estarei."
                                                             (A Morte, segundo Saramago)
É fim de tarde
e minha noite se aproxima.

Porém eu não queria tristeza
na derradeira hora;
prefiro que seja súbita 
ou que o medo preencha
o intervalo entre a agonia da doença
e a ausência do existir.

Mas ficar triste eu não queria,
porque tristeza não consola.

A tristeza é a ave negra
que em sobrevoo mórbido
me espreita a carniça
e de forma arrogante despreza
as glórias e mágoas
da minha medíocre Odisseia,

e piando me informa
que tanto a real biografia
quanto a vida sonhada
perderão os unguentos na parte sofrida
e o perfume da carne devassa e quente
para que melhor na terra fermentem.

Sem que daí renasça vida alguma
que se aproveite.