terça-feira, 22 de junho de 2010

À criança que chora.


Chora, menino.
Solta teu berreiro livre e puro
enquanto és criança,
porque teu choro será outro
quando fores adulto.

Só chora assim quem tem ainda
revolta e esperança.
Mais tarde, aceitarás que a vida
é uma viagem amarga entre a maldade e a traição, 
e aprenderás a chorar por dentro, 
sem gastar ruído, lágrima 
nem sentimento.

É cedo para saberes um segredo:
perderás tua indignação
quando vítima da injustiça, 
perderás o credo em teu direito, 
e até a dor da perda vais perder

(e se o peito te doer em desespero,
teu grito ficará restrito
à batida abafada do coração).
Portanto, aproveita agora

e chora,

porque o tempo te dará aos olhos
a secura plena do deserto,
e na tua face em pedra
só o relevo das rugas será vivo,

como um mapa da tua humana trajetória.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Após o gozo


Que não percamos – o após – em perguntas
que dão o escuro à cama e maculam
a quietude e a luz da lua,

nem repassemos antigos desastres
ou elevemos discursos
com graves e agudos
de elétricos pandeiros.

Se agora mesmo lá deixamos pernas,
perdemos braços e afogamos gritos 
em saliva e apego ...

se agora há pouco à luz do corpo
tamanha ânsia nos cedemos
que até nosso peito ofegante
em líquidos lá ficou ...

E se enfim aqui restamos nós após você tanta e tanto eu,
fique então por lá tudo que antes era anseio:

sejamos por instantes só amantes
com espíritos leves e cabelos desfeitos,
no silêncio sonolento deste afeto
permanente nos momentos
sem desejo.