domingo, 7 de fevereiro de 2010

Ouro


Embaralhado na rede de lembranças
e ramagens de família, espinho e melodia
que envolvem meu coração de filho,
nunca atingi sequer um verso à altura
do teu prazer, tua agonia e tua luta.

E tu, pelas dores e amores que passaste,
tinhas dentro a poesia em forma bruta.
Mas sendo inapto à fuga literária,
não convertias tristeza e alegria
em candelabros de palavras e metáforas.

Tentar o teu poema, pai, eu sempre tento,
mas me perco tropeçando em sentimento,
e nunca escrevo um verso que equivalha
às duas palavras, onze letras e um acento
que douram teu nome no mármore da lápide.

4 comentários:

Janaina Amado disse...

Que poema lindíssimo, João Marino! O poema perfeito para ela você talvez não tenha ainda encontrado. Mas o ritmo, sim, e a comovente beleza, também. Talvez esse tropeço seu de sentimentos seja o poema perfeito para ela.

João Renato disse...

Obrigado, Janaína.
Quando fiz o poema, pensava no meu pai. Ao ler o teu comentário entendendo que era a mãe, vi que não o havia identificado.
Assim, acrescentei o vocativo.
Um abraço
JR.

Gerana Damulakis disse...

Um poema e tanto! Um crescente de emoção, um final no topo, na altura certa. Excelente!

Janaina Amado disse...

Oi, João Renato, retornei aqui para lhe dizer que me espantei com a coincidência dos nossos comentários, no blog da Gerana, a respeito do poema de Bilac (como Gerana só libera os comentários após mediá-los, eu não havia lido o seu, qdo. escrevi o meu). Chegando aqui, vi sua explicação sobre o poema ser para o pai - interessante, não é, como eu imediatamente o identifiquei com a mãe (cada um vê segundo seu próprio ângulo, ou mais popular e saborosamente, cada um puxa a brasa para sua saridinha). O vocativo ficou bom. Estou no aguardo do próximo poema. Abraço.