domingo, 24 de fevereiro de 2008

RESUMO DA AGONIA


a despeito do céu azul
que inunda gente, cidade,
ruas
e o Pico do Jaraguá ao fundo,
faz noite.

e céu e sol e morro e mundo
sucumbem no pântano
de onde ressurgem casas sórdidas,
árvores tortas e as notórias figuras
do meu dilúvio.

não mais rejeito ou luto
e aceito
o nefasto convívio:

que o universo escureça
e apague o mundo.

* * * * * * * * * *

brota o dia;

oh, quente sol ardente
dos outros,
o meu destino é pálido:

o frio e a melodia silenciosa,
a face morta e o entorno rude.
muro encimado de cacos de vidro
e arame farpado;
vida sem líquidos.

poeira, muita poeira...

- deita,  deita;
fecha os olhos e aceita a noite.

segura no sono a alça da vida que foge,
e dorme enquanto podes.

mas meu sol é podre, é negro, é sujo.

sou lerdo, sou roto, estou morto;
sou funda lanterna
apagada em desespero.

* * * * * * * * * *

rinnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnn. . . . . . .

nesta manhã impiedosa,
as horas tranquilas
protegem o sol dos outros,

enquanto eu ouço
o canto do amolador de machados
afiando a lâmina
me chamar.

* * * * * * * * * **

todo meu corpo está lanhado
e meu coração sangra
pela fúria dos martelos;

meu tempo
e as horas se tornaram inúteis.

meu olhar está deserto,
eu estou tenso
e tudo está paralisado
porque nenhuma badalada do relógio
desperta a noite;

são três horas e trinta e três
da manhã.

a noite é um pássaro sem asas.

* * * * * * * * * *

nenhuma fogueira
que me aqueça
as mãos geladas.

nenhum norte
a orientar o ponteiro
da bússola.

nenhum ponto cardeal.

nenhum ponteiro.

nenhuma bússola.


oh, existência partida,
meus rios estão secos;
os peixes morreram
e só as pedras insistem
no vazio do leito
onde as ervas daninhas
já brotam com desprezo
por tudo que eu sonhava.

minha vida está descalça.

* * * * * * * * * *

a lua não veste mais
sua camisola cheia
- redonda -
como um seio.

no céu brilha
a crescente foice branca;
terrível, afiada,

sedenta.

* * * * * * * * * *

se a flor era a intenção,
que fria seja a lei.

mas o aroma das flores
terá o perfume machucado.

que sua cor desbote
e se perca no abismo

do crepúsculo que traz a noite,
pois só os desfechos nefastos

se realizam por desejo
do acaso.

* * * * * * * * * *

por todo o caminho
as armadilhas
se esparramam.

agora, 
o travesseiro e a coberta
estão nos seu devido lugar,
mas a cama foi arrumada
sem motivo,

pois toda mobília aguarda
o retorno incerto 
das auroras douradas.

* * * * * * * * * * *

o pão de ontem adormeceu
intocado na mesa
e as xícaras estão sujas
da poeira da espera.

em que pesadelo apagaram as luzes ?

onde se esconderam as vozes
que antes ornavam alegremente
o sofá, a mesa e as cadeiras
na sala de tábuas corridas ?

no aparador,
o relógio esquece a hora;

a cristaleira está sem garrafas
e o cristal das taças tornou-se opaco
quando o mofo abafou o odor de vinho.

ainda que os tapetes
tenham sido retirados,
nenhum som de passos
se escuta pela casa.

* * * * * * * * * *

dá o estilete mais afiado
ao homem.

ele saberá
ensinar ao metal
o alvo devido;

é na carne alheia que reside
seu prazer e riso.


* * * * * * * * * *

acordem a cidade !

ninguém mais poderá dormir
nesses dias em que a noite
é a sequência da escuridão
da noite.

o véu da manhã
foi banido quando deram
o cacto às pálpebras,
e a escuridão contaminou os olhares.


toda claridade será suspeita.
toda claridade será suspeita.
toda claridade será suspeita.

TODA !

* * * * * * * * * *

calma !

este ruído ritmado:
tum...  tum...  tum...  tum ......
parecendo um martelo
socando o fundo da terra
que sobe do chão e faz tremer o piso do quarto e a cama
e até balança o pequeno abat-jour apagado
sobre a mesa de cabeceira
ao lado do relógio

não é real;

é apenas o eco dos trabalhos
da véspera.

presta atenção,
porque entre as batidas
vazam gritos de agonia e pavor
que não puderam
ser sufocados pelas mordaças.

aprende a sua correta tonalidade
com cuidado e dedicação,
pois talvez você precise deles
e é melhor estar sempre muito bem preparado.

* * * * * * * * * *

a vida me esperava
displicente como os dois chinelos
no tapete à beira da cama
me esperavam os pés,
de manhã.

mas proibiram o sol,
e os chinelos pousados no tapete
se tornaram inúteis como dois ponteiros
de relógio caídos no chão,

ponteiros de um relógio morto
porque não faz a noite caminhar;
morto como eu e os chinelos.

eu os olho da cama,
preocupado que a desgraça
contamine tudo na casa.

assim vivemos
como seis trágicos parceiros:
os dois chinelos, a noite, eu e os dois ponteiros.

* * * * * * * * * *

sílaba a sílaba
de um parto negro,
meu poema escorre de mim 
como escória e espelho.

e dessa experiência
dura e mórbida
vamos - eu, noite e memória -,

buscando a luz
e contando a história.

* * * * * * * * * *

ainda que a memória do dia
teimasse em existir
como farpa de madeira escura
encravada na palma da mão,
sei da impossibilidade
de encontrar energia e força
para a fé e a esperança.

nada adianta,
porque acima dos caprichos da alegria,
dos sonhos do mar, da lembrança das cores,
das tardes vitoriosas e das batidas
insistentes do meu coração,

existe o estandarte da noite,
o navio e a taça da noite,
o ar e o beijo da noite,
os cabelos e a barba da noite.

e depois,
ainda existem muitas noites
enfileiradas num baralho de infinitas noites
unidas por um fio invisível de noites
que alinhavam um xale de agonia
pior do que a noite,

porque é o anti-sol,
é o antidia,

é o anti-sonho.

é a supremacia da noite.
é o sexo da noite.

é a noite copulando com a noite
e parindo as outras noites
da sua pornografia escura e definitiva.

* * * * * * * * * *

aos poucos, o silêncio
fez um manto de algodão
e encobriu todas as falas.

depois, foi apagando os ruídos naturais
da onda no mar, do vento em penhascos,
dos orgasmos gloriosos, da correnteza de rios,

e até mesmo aquele zumbido
que o poço d'água mais profundo 
parecia emitir no instante 
em que o raio de sol passageiro 
tocava de luz seu líquido abissal.

então, tudo isso
- e mais o resto das outras coisas -
submergiu no silêncio;

tudo emudeceu.

e assim tem se mantido,
apenas profanado pelos eventuais
excessos da minha respiração.

às vezes eu digo:
- "Ahn !"
mas ele cai no chão,
porque não consegue flutuar
de tanto que o silêncio construiu
o vácuo entre todas as coisas.

- Mas eu lembro do som -,

e esta memória sobrevive em mim
como um grande sapo vermelho
que foi sepultado vivo
depois de espancado
com pau, chicote e enxada.

toda vez que ele respira
chama atenção
porque forma um calombo no meu peito,
bem no local onde o sapo foi enterrado.

mas eu disfarço.

* * * * * * * * * *

o silêncio é um lagarto marrom
grande como um tubarão
passeando pela casa,
porque as palavras que preenchiam o vazio,
unindo as pessoas
entre si e todas as coisas
com as correntes da música
de repente desapareceram.

foram todas trancadas
em antigos armários.

às vezes elas se revoltam
e soltam coices
nas paredes do guarda roupa
como cavalos selvagens,

noutras, ficam tão angustiadas
que se agridem mutuamente
com gritos incompreensíveis,
iguais às vozes vindas da cela
nos hospícios.

* * * * * * * * * *

num momento qualquer
que podia ser manhã,
tarde ou noite
o frio penetrou
sobre a escuridão e o silêncio:

um frio feito floresta
que se enraizou em todos os vazios,
invadindo a vida com galhos e folhas geladas,

um frio penetrando em tudo
como uma tempestade tão forte
que se fazia imóvel de tanto que estava lá,

um frio se enroscando nas coisas
e a sufocar o pescoço da vida
como galhos de uma trepadeira poderosa
que amarrava os acontecimentos
com laços de gelo.

agora há pouco,
os instantes congelados
se aqueceram de silêncio
e molharam o chão da sala.

no teto apareceram
manchas azuladas
que devem ser de umidade

e nas paredes do quarto
surgiu uma tonalidade cinza
que dá até uma certa alegria
porque a escuridão 
se ilumina de mofo e bolor.

mas o cheiro é ruim.

* * * * * * * * * *

a umidade está vencendo
os momentos de espera e aflição;

o relógio que estava quebrado
já se esfarela em ferrugem,

seus mecanismos e peças
estão caídos atrás do aparador

junto com uma poeira marrom
parecida com pó de cupim.

o frio está comendo as engrenagens
que anunciavam a manhã.

o tempo parou de correr
porque o relógio morreu

de frio e medo,

* * * * * * * * * *

um cão bravo me acorda rosnando, 
com seu hálito podre e o olhar inimigo.

e se eu me escondo no alto do monte, 
nuvem, vento e horizonte serão seus latidos.

* * * * * * * * * *

a despeito do que sinto agora,
a tarde cairá
e em seguida será noite,
e logo depois a madrugada.

lá fora !

mas no meu coração é noite
é medo 
é silêncio 
é frio.

oh, vida dos outros,
eu estou à margem,
e sei que nenhum sol ou estrela
dará luz, calor ou norte
nesta viagem.

resisto ao rumo,
mas não sei

Nenhum comentário: