domingo, 24 de fevereiro de 2008

Versos


Assim como velhas tribos
deixaram pedras, cerâmicas e ruínas,
meu verso é o resto da minha vida.

Dilatei dores, desejos e episódios
que o Tempo fez colecionáveis
e construí uma vitrine.

Assumo estas frases
sem vergonha ou vaidade:

venham do riso ou da ferida, 
são cicatrizes de sonhos, 
gozo e lágrimas.

Aprendizado


Às vezes uma rima
surgida do acaso
muda o verso
e o sentido
de tudo que eu pensava.

E parece
da vida me ensinar
mais que toda filosofia
sagrada, erudita
ou vulgar.

Purgatório


Se existe algo após a morte,
acho um absurdo que o destino
da minha alma dependa
de um julgamento divino.

Portanto, que nenhum deus
se meta a ser juiz
ou com o direito de opinar
sobre o que fui ou o que fiz.

Se todos os crentes afirmam
que ele me deu a vida,
agora ela me pertence,
e não lhe devo mais satisfações.

E se vier com interrogações,
não respondo e ainda lhe despejo
todas reclamações
que tenho deste seu presente.

Ruínas


O tempo, as guerras,
o sol, a chuva e o descaso
tornaram mais belas
as colunas gregas antigas.

Os ornamentos destruídos
nos capitéis desgastados
são mudas medalhas
de mágoas e feridas.

Eu invejo a coragem
dessas ruínas;
elas não ocultam a dor
atrás de cicatrizes.

Debate


Quando conversa,
o amor contorce o rosto,

golpeia com o corpo
o corpo da amante

e geme ofegante
um aflito esperanto

de interjeições
chamando o gozo.

Vário


É pouco.
É muito pouco.
É quase nada
o que eu mostro
do meu âmago
no convívio com todos.

É menos do que um osso
que eu jogue
para os cachorros.

Mas não me basta
apenas esta máscara;
na parte de dentro
escondo melhores
e piores outros.

Libido


Assim como todos 
se excitam
com pornografia,

minha cabeça de poeta
fica ereta
quando lê poesia.

RESUMO DA AGONIA


a despeito do céu azul
que inunda gente, cidade,
ruas
e o Pico do Jaraguá ao fundo,
faz noite.

e céu e sol e morro e mundo
sucumbem no pântano
de onde ressurgem casas sórdidas,
árvores tortas e as notórias figuras
do meu dilúvio.

não mais rejeito ou luto
e aceito
o nefasto convívio:

que o universo escureça
e apague o mundo.

* * * * * * * * * *

brota o dia;

oh, quente sol ardente
dos outros,
o meu destino é pálido:

o frio e a melodia silenciosa,
a face morta e o entorno rude.
muro encimado de cacos de vidro
e arame farpado;
vida sem líquidos.

poeira, muita poeira...

- deita,  deita;
fecha os olhos e aceita a noite.

segura no sono a alça da vida que foge,
e dorme enquanto podes.

mas meu sol é podre, é negro, é sujo.

sou lerdo, sou roto, estou morto;
sou funda lanterna
apagada em desespero.

* * * * * * * * * *

rinnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnn. . . . . . .

nesta manhã impiedosa,
as horas tranquilas
protegem o sol dos outros,

enquanto eu ouço
o canto do amolador de machados
afiando a lâmina
me chamar.

* * * * * * * * * **

todo meu corpo está lanhado
e meu coração sangra
pela fúria dos martelos;

meu tempo
e as horas se tornaram inúteis.

meu olhar está deserto,
eu estou tenso
e tudo está paralisado
porque nenhuma badalada do relógio
desperta a noite;

são três horas e trinta e três
da manhã.

a noite é um pássaro sem asas.

* * * * * * * * * *

nenhuma fogueira
que me aqueça
as mãos geladas.

nenhum norte
a orientar o ponteiro
da bússola.

nenhum ponto cardeal.

nenhum ponteiro.

nenhuma bússola.


oh, existência partida,
meus rios estão secos;
os peixes morreram
e só as pedras insistem
no vazio do leito
onde as ervas daninhas
já brotam com desprezo
por tudo que eu sonhava.

minha vida está descalça.

* * * * * * * * * *

a lua não veste mais
sua camisola cheia
- redonda -
como um seio.

no céu brilha
a crescente foice branca;
terrível, afiada,

sedenta.

* * * * * * * * * *

se a flor era a intenção,
que fria seja a lei.

mas o aroma das flores
terá o perfume machucado.

que sua cor desbote
e se perca no abismo

do crepúsculo que traz a noite,
pois só os desfechos nefastos

se realizam por desejo
do acaso.

* * * * * * * * * *

por todo o caminho
as armadilhas
se esparramam.

agora, 
o travesseiro e a coberta
estão nos seu devido lugar,
mas a cama foi arrumada
sem motivo,

pois toda mobília aguarda
o retorno incerto 
das auroras douradas.

* * * * * * * * * * *

o pão de ontem adormeceu
intocado na mesa
e as xícaras estão sujas
da poeira da espera.

em que pesadelo apagaram as luzes ?

onde se esconderam as vozes
que antes ornavam alegremente
o sofá, a mesa e as cadeiras
na sala de tábuas corridas ?

no aparador,
o relógio esquece a hora;

a cristaleira está sem garrafas
e o cristal das taças tornou-se opaco
quando o mofo abafou o odor de vinho.

ainda que os tapetes
tenham sido retirados,
nenhum som de passos
se escuta pela casa.

* * * * * * * * * *

dá o estilete mais afiado
ao homem.

ele saberá
ensinar ao metal
o alvo devido;

é na carne alheia que reside
seu prazer e riso.


* * * * * * * * * *

acordem a cidade !

ninguém mais poderá dormir
nesses dias em que a noite
é a sequência da escuridão
da noite.

o véu da manhã
foi banido quando deram
o cacto às pálpebras,
e a escuridão contaminou os olhares.


toda claridade será suspeita.
toda claridade será suspeita.
toda claridade será suspeita.

TODA !

* * * * * * * * * *

calma !

este ruído ritmado:
tum...  tum...  tum...  tum ......
parecendo um martelo
socando o fundo da terra
que sobe do chão e faz tremer o piso do quarto e a cama
e até balança o pequeno abat-jour apagado
sobre a mesa de cabeceira
ao lado do relógio

não é real;

é apenas o eco dos trabalhos
da véspera.

presta atenção,
porque entre as batidas
vazam gritos de agonia e pavor
que não puderam
ser sufocados pelas mordaças.

aprende a sua correta tonalidade
com cuidado e dedicação,
pois talvez você precise deles
e é melhor estar sempre muito bem preparado.

* * * * * * * * * *

a vida me esperava
displicente como os dois chinelos
no tapete à beira da cama
me esperavam os pés,
de manhã.

mas proibiram o sol,
e os chinelos pousados no tapete
se tornaram inúteis como dois ponteiros
de relógio caídos no chão,

ponteiros de um relógio morto
porque não faz a noite caminhar;
morto como eu e os chinelos.

eu os olho da cama,
preocupado que a desgraça
contamine tudo na casa.

assim vivemos
como seis trágicos parceiros:
os dois chinelos, a noite, eu e os dois ponteiros.

* * * * * * * * * *

sílaba a sílaba
de um parto negro,
meu poema escorre de mim 
como escória e espelho.

e dessa experiência
dura e mórbida
vamos - eu, noite e memória -,

buscando a luz
e contando a história.

* * * * * * * * * *

ainda que a memória do dia
teimasse em existir
como farpa de madeira escura
encravada na palma da mão,
sei da impossibilidade
de encontrar energia e força
para a fé e a esperança.

nada adianta,
porque acima dos caprichos da alegria,
dos sonhos do mar, da lembrança das cores,
das tardes vitoriosas e das batidas
insistentes do meu coração,

existe o estandarte da noite,
o navio e a taça da noite,
o ar e o beijo da noite,
os cabelos e a barba da noite.

e depois,
ainda existem muitas noites
enfileiradas num baralho de infinitas noites
unidas por um fio invisível de noites
que alinhavam um xale de agonia
pior do que a noite,

porque é o anti-sol,
é o antidia,

é o anti-sonho.

é a supremacia da noite.
é o sexo da noite.

é a noite copulando com a noite
e parindo as outras noites
da sua pornografia escura e definitiva.

* * * * * * * * * *

aos poucos, o silêncio
fez um manto de algodão
e encobriu todas as falas.

depois, foi apagando os ruídos naturais
da onda no mar, do vento em penhascos,
dos orgasmos gloriosos, da correnteza de rios,

e até mesmo aquele zumbido
que o poço d'água mais profundo 
parecia emitir no instante 
em que o raio de sol passageiro 
tocava de luz seu líquido abissal.

então, tudo isso
- e mais o resto das outras coisas -
submergiu no silêncio;

tudo emudeceu.

e assim tem se mantido,
apenas profanado pelos eventuais
excessos da minha respiração.

às vezes eu digo:
- "Ahn !"
mas ele cai no chão,
porque não consegue flutuar
de tanto que o silêncio construiu
o vácuo entre todas as coisas.

- Mas eu lembro do som -,

e esta memória sobrevive em mim
como um grande sapo vermelho
que foi sepultado vivo
depois de espancado
com pau, chicote e enxada.

toda vez que ele respira
chama atenção
porque forma um calombo no meu peito,
bem no local onde o sapo foi enterrado.

mas eu disfarço.

* * * * * * * * * *

o silêncio é um lagarto marrom
grande como um tubarão
passeando pela casa,
porque as palavras que preenchiam o vazio,
unindo as pessoas
entre si e todas as coisas
com as correntes da música
de repente desapareceram.

foram todas trancadas
em antigos armários.

às vezes elas se revoltam
e soltam coices
nas paredes do guarda roupa
como cavalos selvagens,

noutras, ficam tão angustiadas
que se agridem mutuamente
com gritos incompreensíveis,
iguais às vozes vindas da cela
nos hospícios.

* * * * * * * * * *

num momento qualquer
que podia ser manhã,
tarde ou noite
o frio penetrou
sobre a escuridão e o silêncio:

um frio feito floresta
que se enraizou em todos os vazios,
invadindo a vida com galhos e folhas geladas,

um frio penetrando em tudo
como uma tempestade tão forte
que se fazia imóvel de tanto que estava lá,

um frio se enroscando nas coisas
e a sufocar o pescoço da vida
como galhos de uma trepadeira poderosa
que amarrava os acontecimentos
com laços de gelo.

agora há pouco,
os instantes congelados
se aqueceram de silêncio
e molharam o chão da sala.

no teto apareceram
manchas azuladas
que devem ser de umidade

e nas paredes do quarto
surgiu uma tonalidade cinza
que dá até uma certa alegria
porque a escuridão 
se ilumina de mofo e bolor.

mas o cheiro é ruim.

* * * * * * * * * *

a umidade está vencendo
os momentos de espera e aflição;

o relógio que estava quebrado
já se esfarela em ferrugem,

seus mecanismos e peças
estão caídos atrás do aparador

junto com uma poeira marrom
parecida com pó de cupim.

o frio está comendo as engrenagens
que anunciavam a manhã.

o tempo parou de correr
porque o relógio morreu

de frio e medo,

* * * * * * * * * *

um cão bravo me acorda rosnando, 
com seu hálito podre e o olhar inimigo.

e se eu me escondo no alto do monte, 
nuvem, vento e horizonte serão seus latidos.

* * * * * * * * * *

a despeito do que sinto agora,
a tarde cairá
e em seguida será noite,
e logo depois a madrugada.

lá fora !

mas no meu coração é noite
é medo 
é silêncio 
é frio.

oh, vida dos outros,
eu estou à margem,
e sei que nenhum sol ou estrela
dará luz, calor ou norte
nesta viagem.

resisto ao rumo,
mas não sei

Os acessórios vitais


Quando observo xícaras usadas,
sem pires nem dignidade,
vendidas por quase nada 
numa bacia de ofertas em feiras de antiquários,

lembro que já tiveram uma história,
foram novas e completas,
eram parte de um aparelho vistoso
do qual se perderam 
e ninguém mais se recorda.

Por isso, cuido bem daquele gemido
da roda do bonde arranhando o trilho
ao fazer a curva,
que no escuro da cama eu escutava
rasgar a noite,
quando criança.

Eu sou uma xícara que vive
sempre a cuidar dos seus pires.

Retrato


João,
observa este retrato da família
onde estão o avô, a avó, as tias
e teu pai aos cinco anos.

Todos já morreram.

Eles já não vêem mais nada,
e no entanto seus olhares
ainda pousam sobre ti
e indicam teu trajeto.

Agora, presta atenção
na expressão deles na fotografia:
alguns são alegres, outros sérios,
espertos ...

Mas o olhar do teu pai é e-
terno.

Pós-contemporâneo

Mas quem sou eu agora?
Eu sou o aleatório.
Sou o que acreditou na verdade absoluta,
mas vendo desabarem todos obeliscos
fiquei novamente repleto de perguntas
e incrédulo à qualquer nova resposta.

Eu sou o que enxerga em tudo o desdouro
porque confiei nos ídolos com fé e força
mas fui traído por todos.
Eu sou o que rejeita outras certezas
porque após perder as velhas
não consigo lançar fora suas ruínas e destroços
para que novas se acomodem num espaço.

Eu sou o que extraviou sua hegemonia interior.
Eu sou quem vence o labirinto derrubando os muros.
Eu sou um pássaro que sai da revoada e reinventa o voo.
Eu sou o espelho quebrado para refletir um mundo em cacos.

Quem é o galo doido que acorda tarde
e canta anunciando a noite e a morte ?
Sou eu. 


Sou o desenraizado da terra
que retalhado, sem credo nem meta,
arranco a casca das conveniências
e toco fogo no mundo, iluminando as trevas.

Eu sou um poeta
e a ninguém engano.
Mas até quando?