quinta-feira, 19 de março de 2015

Itabiras


Não há onde eu consiga pôr o prego.
Há o mundo hostil de traições e azar
me defrontando, sempre a debochar
deste músculo aflito, rubro e cego
de medo em meu peito, que desde a infância
preserva cenas, quadros e milhares
de retratos queridos e invulgares.
E agora velhos, qual loucos em ânsia,
eles buscam qualquer alvenaria
sólida que os permita repousar.
Mas ao que encostam torna-se fugaz:
instável como areia em ventania,
o concreto esfarinha de o tocar,
confirmando que eu nunca terei paz.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Poesia !


Torno a ti ! Não obtive outro socorro
nem do céu nem do inferno emudecidos
nem de heróis (e nem mesmo de bandidos)
para estancar da angústia o indócil jorro.
Venha ela do real ou meu delírio,
queria ver o sol brilhar não vendo
nele o brilho da lâmina descendo
em meu pescoço, impondo-me o martírio.
Os pesadelos tornam-me cansado,
e, acordado, não vivo os mil amores
que imagino, ao fugir dos meus pavores.
Aqui estou, mas trancado a cadeado,
longe do que me envolve de universo:
aflito; vivo e morto nestes versos.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Nada à vista!


Há tempos atrás, como o marinheiro
que da gávea investiga o horizontal
mar, mergulhei no abismo vertical
de mim. Sonhava ser o meu tropeiro,
cruzando vales, charcos e florestas
do outrora. Não sabia do selvagem
infinito e do inútil na viagem,
e imaginava no retorno as festas
que, após a dor e a cura, rindo eu mesmo
me ofertaria, a cada descoberta.
Já agora, se viajo em mim é a esmo:
sou como o capitão que no alto-mar
sonha olhando as estrelas na coberta,
e desvia se alguma ilha avistar.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Estácio


Não toda a cidade.

Não os aglomerados coloridos de neon
cujo central glamour humilha e derrota
o brilho de holofotes.

Jamais o pasto lascivo de sereias
e de heróis, lambido de ondas
e beijado de sol.

São quatro horas e quarenta e quatro da manhã
quando os paralelepípedos silenciosos
da miserável rua no bairro do Estácio
interrompem a madrugada paulistana
e me arrancam da cama
para escrever.

Uma rua me inspira.

Uma fedorenta rua.

Na verdade, são mais; são centenas,
são quase bairros, porque várias se igualam
e se juntam à ela,
são diversas,
todas entrelaçadas
em rotas há muito traçadas e esquecidas,
como cidades reaparecidas após submersas séculos
num pântano de apodrecidas águas.

Não sei se aqui canto uma ode
ou elegia,
de tanto que sabem à morte
e à ruína.

Mas não são as ruínas honradas de uma guerra
ou de um templo abandonado de onde os homens
e os deuses partiram, assim como deles eu parti também.
Tampouco as ruínas gregas de espalhafatosos mármores
que o desbotar do tempo amansou em branco isento.

As minhas, são ruínas de descaso e ainda habitadas:
a madeira das portas apodreceu
e nas janelas também podres de batentes e frestas
os vidros rachados antes espelham
a sujeira do que permitem a entrada de luz
em casas onde o reboco das paredes ao desabar
no assoalho infestado de cupins
expôs tijolos desbotados de desonra
e canos enferrujados, como tripas
de um cadáver emparedado
entre pedras de cantaria.

São ruínas entre moscas, mosquitos e baratas
procriando no calor e na umidade,
por onde se arrastam lagartixas, ratos e idosos humilhados
como carcomidas cariátides corcundas carregando,
entre goteiras, musgo e fungos, existências de fracasso
apoiados em bengalas de cabos de vassoura,
e os jovens prematuramente envelhecem
derrotados num presente desprezível de futuro parco,
e todas as crianças já nascem com imaginárias
tatuagens na testa vaticinando-lhes um destino
de fiasco e malogro. Ruas de salário-mínimo, subemprego
e aposentados vagando em vidas de insucesso que definham
ao peso de lumbagos, joanetes, hemoptises, doenças venéreas,
erisipelas, diarreias, bicos de papagaio, varizes, alergias,
bronquites, hemorroidas, sinusites e reumatismos vários
que enfraquecem corpos a quem o infarto fulminante
seria um luxo impensável.

Ruas onde os mendigos dividem o espaço
noturno com gatos, e os cachorros soltos
perambulam magros, disputando todos
as latas de lixo. Ruas de vida abjeta,
onde se admite o sexo pago, os pequenos roubos e adultérios,
a mentira, a grosseria, o vômito das bebedeiras e as intrigas,
mas o assassinato não comparece
por falta de coragem.

Ruas onde sarjetas sórdidas se inundam
de águas sujas e independentes da chuva
como se assim imundas já brotassem do meio fio
entre fontes de urina e guimbas de cigarro.

Ruas da perda que a cidade envergonhada
relegou a um gueto ao rés do chão
e se ergueu defensiva em viadutos
que as sobrevoam e assim isolam seu desdouro
em eterna quarentena.

Ruas do fracasso, do lixo, do fedor, do desprezo
e da vergonha, curral urbano regressivo
onde a planura do terreno e a alvenaria dos imóveis
impede-lhes a dignidade de uma favela.

Ruas que eu lamento,
pocilga de casas e subseres desabando decadentes
no abandono, ruas e pessoas
que eu entendo
e só eu amo.


segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Ítaca


Ele tivera cadillac, já fora
rico, flanava em taxis... Mas falido,
passou a pegar ônibus e bonde.
Ansioso (por vezo de patrão),
espichava o pescoço e investigava
a avenida, forçando os olhos míopes;
acendia um cigarro; se apoiava
à árvore, ou dava voltas na calçada,
como o mítico Ulisses em seu barco
faria, no oceano em calmaria.
Quando o bonde lotado enfim chegava,
mantendo o olhar amargo, ele sorria,
pois sem mulher, dinheiro nem amigos
subir no estribo era aportar em Ítaca.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Rio Revisited IV

                 
                  I V

Rio das Correntes

De que valeu voltar às velhas ruas
repletas de fantasmas e de histórias?

A geografia da cidade é isenta:
os paralelepípedos mostraram

apenas o minério do granito;
nas folhas que das árvores caíam

nenhum bilhete havia para ti,
e as telhas, as janelas e o reboco

dos prédios gargalharam, debochando
da procura que insistes por teimoso.

Aquilo que buscavas, refazendo
os caminhos de outrora, não achaste.

Aceita que perdeste o teu Passado:
o Tempo fustigou o calendário,

e a vida, prosseguindo na cidade,
cavoucou Rios de Setembro, Outubro...

E as águas que em Janeiro te banhavas
só correm nas correntes da memória.

                  (São Paulo, Novembro/Dezembro de 2014.)


quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Rio Revisited III


                                  I I I

Rio Noturno 

Por aquela porta, ele entrou em casa.
Mas partiu antes de sair por ela.
Foi a soleira derradeira dele.

Na manhã seguinte, ele e o sol se viram,
mas o astro foi quem o assistiu se pôr.
Dalí, o rio noturno o carregou.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Rio Revisited II

   
                                I I

Rio do Mangue

Cidade Nova? Não. Eu quero a velha,
quero de volta a Pinto de Azevedo
e a Jussara num tempo antes da Aids,
porque hoje creio, e lhe daria o beijo.

O oral, ela fazia até o final
e engolia. Também da sodomia
ela gostava. E nunca me cobrava;
dava o gozo de graça, por desejo,

e após, chorava rindo, emocionada.
Um dia, disse: "Juro! Só contigo
faço tudo", e pediu um beijo na boca
"como se eu fosse honesta, tua noiva".

Ah, Jussara, não fosse pelo Heráclito,
nós e as águas do Rio retornávamos.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Rio Revisited I

                                       "Ó céu azul — o mesmo da minha infância"
                                           Fernando Pessoa/Álvaro de Campos

                                I

Rio Félix Pacheco


És a origem: incêndio no meu sangue
emocionando o sol do coração
ao som de batucada, riso e tiro.  


Indivisível qual número primo,
és  morrochãomarcéuazulegente
dançando um samba cujo enredo é o medo.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Por que não tu ?


Por que não tu, se a traição atinge
outros mais inocentes e mais justos?
Que halo ou escudo de metal robusto,
que fortaleza, que feroz esfinge,

armada em teu quintal, te salvaria
as costas de machados, lanças, flechas
e espadas afiadas que nas brechas
da confiança o traidor te enfia?

Sabes ver a mentira num sorriso?
E no olhar, reconheces um ardil?
Sentes na mão que apertas o punhal?

Um riso sedutor é como o guizo
da cascavel oculta no gentil
"amigo", tão simpático ...  e venal.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

"J-19461 / Q-57"


Não é por eles. É por nós que iremos,
solenes, enfeitar com rosas brancas
e efêmeras seu leito eterno e pétreo,
pois o aroma da flor lá não penetra.

Nem a luz do pavio em nossas velas
vencerá mármore, madeira e terra,
invictos frente a crédulos e incréus.

Lembraremos da voz, o jeito, o riso...
e com saudade esqueceremos erros
por eles cometidos no convívio.

Porém, se um só instante acreditarmos
que estão todos de pé, ao nosso lado,
como dentro de nós prosseguem sendo,
daremos vida aos áridos ossários.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Périplo


                                       Para Miguel Torga

Numa noite vulgar de vento e chuva,
nesta imensa cidade de São Paulo
de variados mil povos e raças,
um brasileiro de ascendência lusa
sobre si mesmo atento se debruça,
e não avista em sua biografia
um passado de lutas, aventuras,
heroísmo nem brilho de batalhas.

Não alarguei o mapa do oceano
cruzando o mar hostil em caravelas,
nem impus o ódio santo em territórios,
dominando com armas outros povos;
o que impera na minha trajetória
é um combate mesquinho e miserável:
a luta desigual contra a derrota
que tocaia sedenta a minha história.

Mas a teimosa origem transmontana,
casca grossa, turrona e cabeçuda
por atrás da minha cara tosca e dura,
além do eterno vício da saudade
e insuspeitas bravura e lealdade
(prejudicadas pela ingenuidade),
também me deu a herança valiosa
do gosto e sedução pelas palavras.

Armado desta flor-espada busco 
versos de cadafalso e de jardim.
E do miúdo mas intenso mar
de prazeres, tormentas e paixões
que carrego por dentro e me alimento,
trago frases alegres ou sombrias,
e com esmero dedicado escrevo
meus poemas em língua portuguesa.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Ardente


Ele sempre voltava aos obeliscos
onde, in memoriam, masturbava as cenas
imunes ao contágio da gangrena
do Tempo. Na cidade, os asteriscos
da lembrança marcavam, qual faróis,
vários pontos de gozo e de desgosto.
Uma noite sonhando, foi com o rosto
e o corpo ocultos sob velhos lençóis
sujos de esperma, mênstruos e rejeitos,
parecendo um fantasma de indigente,
certo de que ela não o avistaria.
Ao vê-lo, ela arrancou-lhe a fantasia,
e, erguendo a saia em repto, a cona ardente
reganhou. Sem pudor, como era ao leito.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Oração


Se muitos são certos de céu e inferno,
outros não menos certos nada esperam.
Mas ambos, com ou sem credo, se iludem 
escolhendo o caminho, sem saber
que o derradeiro juiz é o Destino.

Sendo assim, caminhemos ao relento,
colecionando acasos, gritos, tapas,
orgasmos, erros, risos satisfeitos,
e também vilanias e bondades,
cientes de que não somos perfeitos
nem sairemos num passeio calmo.
Haveremos de estar juntos no mundo
com gargalhadas, traições, acenos,
ódios e perdões falsos, temperados
por beijos doces, vícios e pecados,
trocados em estradas aleatórias
onde surgir a Vida era improvável.

Espero que nas noites intranquilas,
quando minha alma se descobre só,
perambulando triste e cabisbaixa,
um êxtase me encontre e reanime
com o presente de um credo sublime
que pode vir de um verso curto e mágico,
da música, das festas de menino
e sua alegria antiga, das palavras
com precisão, surpresa e confiança
salvadora que escuto dos amigos,
das melodias quentes da libido,
do vinho ou de enxergar aquele amor
clandestino, há tempos me habitando
como um fantasma que de tão sereno
não me assombrava nem eu o pressentia.

Porém, mesmo com todos bons convivas:
- sexo, amor, melodias, amizades,
alegrias antigas, versos, vinhos... -
nos instantes de intenso desespero,
afundo num inferno mais terrível
que o pavor construído num poema
convincente que expresse um sentimento
hostil e perigoso e sem saída.

Então, meu medo agarra o salvador
conceito de que mortos ficaremos
eternos e tranquilos, mas em vida
seremos temporários, alarmados
e imersos em receio e covardia.
Portanto, mesmo frágeis, caminhemos.


quarta-feira, 30 de julho de 2014

Secreto remédio


Remendar em segredo um verso falho
é o meu remédio contra o caos e o tédio.
Assim agindo, luto e venço o assédio
do maçante ou do trágico, e gargalho
debochado, sem pejo nem respeito.
Sou crente apenas neste deus privado
que co'uma frase já me põe armado
e vencedor num mundo tão mal feito.
Arrancar a palavra da armadura
que oculta seu anseio de costura
é trabalho infernal, mais que difícil.
Porém, se em volta explode enfado ou míssil,
danem-se todos. Faço até gracejo,
me inspiro no estilhaço e já versejo.

domingo, 6 de julho de 2014

Viver


Não ser no espelho nem dentro de si
(neles há a solidão). Estar no espaço
de fora, no exigente mundo externo.
Ver o espírito e a carne, e desejar
ambos. Aceitar-se ínfimo detalhe
nesta vasta atmosfera, e habitar - sóbrio -
teu árduo coliseu pleno de feras.
Fingir-se em fera injusta e sanguinária.
Saber que a luta é inglória, pois o fim
da batalha é silêncio, noite e terra.
Buscar com arte o cômico no trágico.
Ter o credo de si mesmo somente,
mas por covarde estender mãos pedintes
e trêmulas de medo ao deus do Tempo.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Felino


                                     "O amor antigo vive de si mesmo"
                                                  (Drummond)


Felino? Sim. Porém, não mais o tigre;
busco seu corpo como o velho gato
busca na dona o acolhedor regaço.

Mas após instalado em suas coxas,
quer de novo a luxúria majestosa,
própria do rei leão. Mas como ser
leão se minha juba fez-se calva?

Mesmo assim, sobrevive, mais teimoso
que voraz, um desejo até cruel,
porque, embora me excite tanto, falho,  

às vezes, ao tentar a posse e o gozo.

Passado o caos, recordo as noites tórridas ...
e enquanto a dona dorme, eu ronco e fodo-a
numa cama de sonhos e memórias.



quarta-feira, 7 de maio de 2014

Olha, Príncipe !


Olha, Príncipe ! Observa o cemitério
e identifica em várias sepulturas
teus sonhos de vitórias e bravuras.
Escuta a saudação do teu império
mudo, e imagina-te fazendo acenos
ou sorrindo fleumático e distante.
Os mais belos jazigos são amantes
que inda suplicam teus atos obscenos.
Aquele egrégio e dourado é a riqueza
que por argúcia e herança Sua Alteza
conquistou, sem suor nem dissabor.
Simula a realeza e a majestade,
Príncipe, e esconde a cova rasa que há de
enterrar teu real fracasso e a dor.

domingo, 20 de abril de 2014

A saída


Não tenho tatuagens. Mas possuo
cicatrizes. A mais funda, eu enfrento
batendo o coração. As outras, tento
disfarçar co'a risada que pontuo
as frases sorridentes mas vazias,
negadas nas pupilas camufladas
e oblíquas. Oh, alegrias proclamadas
por mim, quase nenhuma soaria
se houvesse na garganta uma cancela
de verdades barrando as assertivas
afirmadas, por cínico impudor,
que minto com pavor na minha cela.
Aflito, preso e pasmo na deriva,
encontro a liberdade só no amor.

terça-feira, 1 de abril de 2014

A beleza


Não folheia à pirita ou ouro a vida,
a ruga, o feio, o verso ... nem recobre
com tintura o cimento para que ele
imite o rico mármore. A beleza,
se existe, brilha por ser nua, livre
e simples: olha a praia e o horizonte,
com mar e céu e luz se penetrando
entre nuvens e vento; aprende o encanto
do círculo imperfeito, uno e distinto
como pérola, num pingo de leite;
contempla nas mulheres as jazidas
do afago, e aceita o sério Tempo rindo
como a coluna grega faz: mostrando
o belo da ruína sem disfarces.