Ira
Como se a luz
armasse-nos uma trapaça,
na cidade histórica
a noite desceu pontual
ao toque de sino.
A igreja antiga, quase fechando, merecia a visita.
Dentro, o silêncio de vela e incenso
já absorvia a escuridão constrita
dos mortos sob o piso.
(Infinita penumbra cabe numa igreja de Minas.)
No altar-mor, o padre lutava
fechando a sagrada vitrine
com o Senhor Morto.
O Cristo sangrento de dor e feridas
assistia a intolerância vermelha da raiva
contra o diabo daquela tampa de vidro
emperrada.
Pagamos dois reais cada, na saída.
sábado, 17 de março de 2012
quinta-feira, 1 de março de 2012
O cão, a luz e o jardim
De nada te serve tirar versos
da sombra da caçamba do passado
que te proibe sempre a luz
enquanto te conduz pela coleira,
como um cão dolorindo
de cegueira pelas ruas.
Lá fora, o sol e a música
de rosas, pedras e poemas
do jardim urgente te esperam.
Mas como estás fechado por repleto,
sem espaço para este Presente,
perdes o Tempo todo que recebes.
E mesmo o mínimo fulgor de Agora
cujo brilho força tua carcaça
e pelas frestas te penetra
não te alegra ou ilumina,
porque as cinco portas dos sentidos
tão ressentidas ficaram de Outroras
que tudo filtram,
distorcem, contaminam,
e o que adentra
apenas te engana,
apenas te mente.
De nada te serve tirar versos
da sombra da caçamba do passado
que te proibe sempre a luz
enquanto te conduz pela coleira,
como um cão dolorindo
de cegueira pelas ruas.
Lá fora, o sol e a música
de rosas, pedras e poemas
do jardim urgente te esperam.
Mas como estás fechado por repleto,
sem espaço para este Presente,
perdes o Tempo todo que recebes.
E mesmo o mínimo fulgor de Agora
cujo brilho força tua carcaça
e pelas frestas te penetra
não te alegra ou ilumina,
porque as cinco portas dos sentidos
tão ressentidas ficaram de Outroras
que tudo filtram,
distorcem, contaminam,
e o que adentra
apenas te engana,
apenas te mente.
sábado, 11 de fevereiro de 2012
Amor
Fosse paixão, e seria fácil:
bastavam meia duzia de figuras de linguagem
explosivas e inverídicas, cuja pirotecnia
e brilho impactantes, ofuscando o vazio
por trás da fugaz alegoria,
já seduziriam as duas metades
incomunicáveis de cada casal triste,
e por isso críveis no desvario
da aventura passional como saída.
Fosse apenas sexo, e palavras quentes,
bem sacadas pela carga de luxúria e lascívia
beirando o obsceno, ao criarem um clima
de lírico impudor já tornavam cúmplice o leitor,
devido ao carisma do erotismo,
que excita, nivela e arbitra
o mesmo destino
a puros e a libertinos.
E fosse só poesia, mais fácil ainda:
com um punhado de frases acentuadas por espaços,
e rimas alocadas com pontaria,
já certa música e algum equilíbrio de texto lá estariam;
depois, com a aliteração e as tônicas
realçando o ritmo, as metáforas teriam graça, frescor,
um toque de alegria,
- e, por fim, desarrumando tudo,
o poema ficaria difícil,
parecendo profundo.
Mas sendo Amor, o poeta se complica,
se aquieta por sincero
e medita
confuso, repleto,
sem armadilhas,
maravilhado
e sem palavras.
Fosse paixão, e seria fácil:
bastavam meia duzia de figuras de linguagem
explosivas e inverídicas, cuja pirotecnia
e brilho impactantes, ofuscando o vazio
por trás da fugaz alegoria,
já seduziriam as duas metades
incomunicáveis de cada casal triste,
e por isso críveis no desvario
da aventura passional como saída.
Fosse apenas sexo, e palavras quentes,
bem sacadas pela carga de luxúria e lascívia
beirando o obsceno, ao criarem um clima
de lírico impudor já tornavam cúmplice o leitor,
devido ao carisma do erotismo,
que excita, nivela e arbitra
o mesmo destino
a puros e a libertinos.
E fosse só poesia, mais fácil ainda:
com um punhado de frases acentuadas por espaços,
e rimas alocadas com pontaria,
já certa música e algum equilíbrio de texto lá estariam;
depois, com a aliteração e as tônicas
realçando o ritmo, as metáforas teriam graça, frescor,
um toque de alegria,
- e, por fim, desarrumando tudo,
o poema ficaria difícil,
parecendo profundo.
Mas sendo Amor, o poeta se complica,
se aquieta por sincero
e medita
confuso, repleto,
sem armadilhas,
maravilhado
e sem palavras.
segunda-feira, 30 de janeiro de 2012
Lacunas
Não desperdiça ...
nem aceita que ...
a tua vida e a tua poesia.
Jamais ....
Então, é inútil pronunciar estas palavras.
Fique mudo.
Tampouco permita ...
a tristeza que desliga o luar
e esconde a película
do beijo do orvalho no arbusto.
Não deixe ...
a sequência dos meses.
E doravante, sequer no silente pensamento ...
... poluir a madrugada
e sua promessa, mal o dia,
ainda sonolento, desponta
e recomeça.
Não desperdiça ...
nem aceita que ...
a tua vida e a tua poesia.
Jamais ....
Então, é inútil pronunciar estas palavras.
Fique mudo.
Tampouco permita ...
a tristeza que desliga o luar
e esconde a película
do beijo do orvalho no arbusto.
Não deixe ...
a sequência dos meses.
E doravante, sequer no silente pensamento ...
... poluir a madrugada
e sua promessa, mal o dia,
ainda sonolento, desponta
e recomeça.
sábado, 14 de janeiro de 2012
sexta-feira, 30 de dezembro de 2011
Pátria
Sendo tão real quanto imaginária,
tendo o pé direito fincado no sonho
e o esquerdo vadiando na memória,
é meu coração a pátria que me guarda.
Lá tem risos, farpas, flores e medos
que entre dores, desejos e músicas
se igualam em variedade e espécie
aos teus ou de qualquer um outro,
mas diferem de todos e tuas
por ser ela a minha singular e única
histórica testemunha,
quase que da alma o osso.
E se, como árvore, meu coração
eu chacoalhasse, dos eventos íntimos
ao solo caídos, os reconhecíveis
eu desprezava, incurioso.
Mas atentaria no alvoroço dos pássaros
que voassem dos galhos, ganhando o ar,
igualando-se, não ao meu cenário,
mas ao âmago meu, que foge se tento pegar.
se igualam em variedade e espécie
aos teus ou de qualquer um outro,
mas diferem de todos e tuas
por ser ela a minha singular e única
histórica testemunha,
quase que da alma o osso.
E se, como árvore, meu coração
eu chacoalhasse, dos eventos íntimos
ao solo caídos, os reconhecíveis
eu desprezava, incurioso.
Mas atentaria no alvoroço dos pássaros
que voassem dos galhos, ganhando o ar,
igualando-se, não ao meu cenário,
mas ao âmago meu, que foge se tento pegar.
segunda-feira, 12 de dezembro de 2011
Hora Fria
Não tenho mais canções de fogo,
revolta ou tempestades;
meu outono contamina de tédio
o olhar, o gesto e a expectativa do sexo.
Agora,
até mesmo o encanto das manhãs ensolaradas
se apaga entre cortinas de cansaço,
anunciando que apenas certas horas da tarde
restarão potáveis para a especulação,
o desejo e a poesia,
enquanto as noites, antes selvagens,
se tornam trajetos lentos, com a imutável paisagem
do travesseiro e do lençol amarrotados de insônia,
silêncio e frio.
Findo o tempo das tentativas,
todos momentos já vividos se confundem na distância
e vão desbotando de esquecimento,
como se as singularidades de cada instante
se tivessem perdido pelo caminho
junto com suas emoções e julgamentos,
e todos aqueles dias fossem se igualando
a corpos de náufragos anônimos,
a boiar idênticos, na deriva de oceano.
Aceito a dor. Contemplo a dor.
Sua persistência garantiu-lhe um direito adquirido.
De tão antigo,
nosso convívio já tornou-se conjugal
e com aceitação igual aos postulados da geometria
ou à lei da gravidade.
Aceito a solidão. Contemplo a solidão.
Eu sou a solidão,
porque o meu invólucro de pele é a máxima prisão
da qual finjo fugir buscando-me em outros
pela amizade, o amor ou o sexo,
que se alcançados logo se dissolvem nos enganos
ou em fadigas da rotina
e seus desertos.
Muitos extremos meus partiram com o vento
ou morreram juntos ao fascínio dos excessos,
e os sobreviventes dirigem-se ao centro
tentando a paz, a fuga ou a amnésia das convicções,
porque se convenceram de que as situações execráveis
ou absurdas em que transbordamos de fúria
são tão passageiras quanto uma tarde de chuva,
assim como também nos dias quentes
os rios secam ou seguem para o mar,
independente de nossas angústias, lutas
ou inúteis indignações serem proclamadas
com a fé, a tristeza
ou a raiva com que fantasiamos
tantas palavras ditas.
Palavras cuja maior parte
só afrontou o silêncio, pois raras ficaram.
E mesmo essas, se provocaram
alguma alteração na superfície dos seres,
nossos âmagos resistiram e venceram
intocados.
Se olho meu horizonte à frente,
as tonalidades marcantes vão escurecendo
como o crepúsculo desinteressante
de uma jornada nua de epopéias,
onde o tom mais recente é o negro
temor do chamado da terra,
sem a grandeza ou brilho das Tragédias
e descrente de luz no abismo eterno.
Se vivo o que virá,
é devido à sede do que não foi,
pois o calor que resta ainda em mim
vem da lembrança das labaredas
que à época não vingaram.
É por elas que eu resisto.
Não tenho mais canções de fogo,
revolta ou tempestades;
meu outono contamina de tédio
o olhar, o gesto e a expectativa do sexo.
Agora,
até mesmo o encanto das manhãs ensolaradas
se apaga entre cortinas de cansaço,
anunciando que apenas certas horas da tarde
restarão potáveis para a especulação,
o desejo e a poesia,
enquanto as noites, antes selvagens,
se tornam trajetos lentos, com a imutável paisagem
do travesseiro e do lençol amarrotados de insônia,
silêncio e frio.
Findo o tempo das tentativas,
todos momentos já vividos se confundem na distância
e vão desbotando de esquecimento,
como se as singularidades de cada instante
se tivessem perdido pelo caminho
junto com suas emoções e julgamentos,
e todos aqueles dias fossem se igualando
a corpos de náufragos anônimos,
a boiar idênticos, na deriva de oceano.
Aceito a dor. Contemplo a dor.
Sua persistência garantiu-lhe um direito adquirido.
De tão antigo,
nosso convívio já tornou-se conjugal
e com aceitação igual aos postulados da geometria
ou à lei da gravidade.
Aceito a solidão. Contemplo a solidão.
Eu sou a solidão,
porque o meu invólucro de pele é a máxima prisão
da qual finjo fugir buscando-me em outros
pela amizade, o amor ou o sexo,
que se alcançados logo se dissolvem nos enganos
ou em fadigas da rotina
e seus desertos.
Muitos extremos meus partiram com o vento
ou morreram juntos ao fascínio dos excessos,
e os sobreviventes dirigem-se ao centro
tentando a paz, a fuga ou a amnésia das convicções,
porque se convenceram de que as situações execráveis
ou absurdas em que transbordamos de fúria
são tão passageiras quanto uma tarde de chuva,
assim como também nos dias quentes
os rios secam ou seguem para o mar,
independente de nossas angústias, lutas
ou inúteis indignações serem proclamadas
com a fé, a tristeza
ou a raiva com que fantasiamos
tantas palavras ditas.
Palavras cuja maior parte
só afrontou o silêncio, pois raras ficaram.
E mesmo essas, se provocaram
alguma alteração na superfície dos seres,
nossos âmagos resistiram e venceram
intocados.
Se olho meu horizonte à frente,
as tonalidades marcantes vão escurecendo
como o crepúsculo desinteressante
de uma jornada nua de epopéias,
onde o tom mais recente é o negro
temor do chamado da terra,
sem a grandeza ou brilho das Tragédias
e descrente de luz no abismo eterno.
Se vivo o que virá,
é devido à sede do que não foi,
pois o calor que resta ainda em mim
vem da lembrança das labaredas
que à época não vingaram.
É por elas que eu resisto.
segunda-feira, 28 de novembro de 2011
Sentinelas
Quando as orquídeas da alegria
rompem as defesas do meu coração
triste,
gargalho a esbórnia de felicidade
que a inconsciência ou a ilusão
me propiciam.
Passado o riso, regresso a mim,
e dos jardins que cuido no peito,
o das flores pisadas acaba sendo
meu prolixo canteiro
de versos doridos como as frases
que, gravadas na lápide, no cemitério ficam,
e lá eternizam a agonia, o choro e o grito,
enquanto a viúva e o órfão
retornam à casa, à vida e a seus ofícios.
Assim também - sentinelas grafadas
que me liberam - são
meus poemas sombrios.
quinta-feira, 10 de novembro de 2011
Vivo
Em avenidas, ruas, bares
e casas do nosso convívio, ele não está
vivo mais.
E quando insisto e procuro
a voz e o olhar da amável figura
nos mesmos lugares
em que esteve comigo,
a paisagem se entorta
vazia do morto que agora há.
Porém, sei que vivo ele está
(mas não por credo absurdo).
E lá, vive junto à herdada ignorância
dos mecanismos do mundo,
camuflada sob a mesma masculina couraça
de estóica mudez,
cujo vulnerável tecido de sonho e orgulho
impede a saída de golpes, mas não a entrada.
No mesmo riso e mágoa desorientadas
de viajantes inadequados,
vivo ele está em mim e comigo
quando súbito o reconheço
numa reação ou gesto meu casual,
e me acrescento às pérolas do colar
que - mais além da visão egoísta
e parcial minha - descobre e reconstrói
a frágil pessoa humana:
própria, dele, integral; liberta agora da circunstância
de pai.
quarta-feira, 19 de outubro de 2011
Insônia
De que te serve um vício tão feroz
a consumir teu coração em cicatrizes,
sem compensar o dano da angústia atroz
com mínima sensação de euforia ou paz ?
É inútil que tua mais eficaz memória
raspe com canino afinco e esmero
os esqueletos sórdidos que por ódio
conservas no formol do desprezo.
Devido à fé no pudor a que te agarras
(e não mais por gana de vinganças),
trancastes todas portas do perdão,
só restando tu na jaula desta faina.
Então, a cada manhã, os mesmos ossários,
à noite descarnados, em dor se reencarnam,
sem que nenhuma chance de libertação
te conceda este labor estéril e amargo.
De que te serve um vício tão feroz
a consumir teu coração em cicatrizes,
sem compensar o dano da angústia atroz
com mínima sensação de euforia ou paz ?
É inútil que tua mais eficaz memória
raspe com canino afinco e esmero
os esqueletos sórdidos que por ódio
conservas no formol do desprezo.
Devido à fé no pudor a que te agarras
(e não mais por gana de vinganças),
trancastes todas portas do perdão,
só restando tu na jaula desta faina.
Então, a cada manhã, os mesmos ossários,
à noite descarnados, em dor se reencarnam,
sem que nenhuma chance de libertação
te conceda este labor estéril e amargo.
sexta-feira, 30 de setembro de 2011
Espumas
Recordo as duras palavras
ditas,
que na espuma da raiva
escondiam as súplicas
da minha alma ávida
de relevar e aceitar
tuas mentiras tácitas.
Pois ainda agora, numa onda absurda
que do inferno ressurge
como relíquia feroz e perversa,
os motivos me ecoam,
e soturnos magoam e ainda ferem,
repetindo dores inúteis
para um enredo
tão velho.
Ah, infinitas espumas da ressaca
que na areia da praia
evaporam sem rastro ou vestígios,
eu invejo tuas águas.
Recordo as duras palavras
ditas,
que na espuma da raiva
escondiam as súplicas
da minha alma ávida
de relevar e aceitar
tuas mentiras tácitas.
Pois ainda agora, numa onda absurda
que do inferno ressurge
como relíquia feroz e perversa,
os motivos me ecoam,
e soturnos magoam e ainda ferem,
repetindo dores inúteis
para um enredo
tão velho.
Ah, infinitas espumas da ressaca
que na areia da praia
evaporam sem rastro ou vestígios,
eu invejo tuas águas.
segunda-feira, 12 de setembro de 2011
segunda-feira, 29 de agosto de 2011
Ars poética
Dos episódios,
importa lembrar só o arabesco,
para que neles eu acrescente
verdades voláteis.
Não quero copiar
o silêncio da alameda
reta e isenta,
nem dizer a paz das flores
que não sorriem
com o vento.
Arquiteto do meu verso,
pinto cores como quero,
tendo o riso, a dor e o mel
do coração e da razão
como tinta e pincel.
Dos episódios,
importa lembrar só o arabesco,
para que neles eu acrescente
verdades voláteis.
Não quero copiar
o silêncio da alameda
reta e isenta,
nem dizer a paz das flores
que não sorriem
com o vento.
Arquiteto do meu verso,
pinto cores como quero,
tendo o riso, a dor e o mel
do coração e da razão
como tinta e pincel.
segunda-feira, 15 de agosto de 2011
A borboleta
Em repouso na árvore,
é a grande pétala andrógina e antenada
que se destaca na beleza e esmero
da maquiagem.
E quando se desloca,
o aleatório do volteio circular quase a iguala
à colorida pluma que à deriva flutua
eólica,
sem gravidade.
Instável antiflecha,
sua leveza de tanajura
atada a finíssimas grandes asas
em arabescos no ar se move,
- mas com tão estranhos
circunlóquios vai ornando
sua trajetória, que a ninguém é dado
o prêmio de lhe adivinhar o alvo.
Porém, não por vontade própria:
é a frágil anatomia aliada
ao sopro suave do vento
que, unidos, dão ao seu passeio
o encanto admirável
da falta de objetividade
que o aparenta à Arte,
e cujo lirismo finda, como um Cristo,
transpassado pelo científico
alfinete do entomologista,
num sarcófago de madeira
e vidro.
Em repouso na árvore,
é a grande pétala andrógina e antenada
que se destaca na beleza e esmero
da maquiagem.
E quando se desloca,
o aleatório do volteio circular quase a iguala
à colorida pluma que à deriva flutua
eólica,
sem gravidade.
Instável antiflecha,
sua leveza de tanajura
atada a finíssimas grandes asas
em arabescos no ar se move,
- mas com tão estranhos
circunlóquios vai ornando
sua trajetória, que a ninguém é dado
o prêmio de lhe adivinhar o alvo.
Porém, não por vontade própria:
é a frágil anatomia aliada
ao sopro suave do vento
que, unidos, dão ao seu passeio
o encanto admirável
da falta de objetividade
que o aparenta à Arte,
e cujo lirismo finda, como um Cristo,
transpassado pelo científico
alfinete do entomologista,
num sarcófago de madeira
e vidro.
sábado, 30 de julho de 2011
Encontro com Rilke
- Tarde de verão –
teu crepúsculo inunda o mundo
lentamente como o leito escuro
de um rio imenso
que invade e afoga
minha vida e o horizonte
na água da descrença.
No parque,
a estátua sonolenta de Rilke
desceu da base e boceja escondida
entre as árvores
onde a última cigarra solitária
também desiste de cantar
por companhia.
Os casais de pássaros retornam ao ninho,
gratos da jornada no céu quente.
E eu me despeço das promessas
não cumpridas pelo sol
que se dissolvem nas sombras
ou se perdem na solidão do mormaço
sem que nenhum anjo quebre o silêncio
no entorno do banco onde
sozinho
me sento.
- Tarde de verão –
teu crepúsculo inunda o mundo
lentamente como o leito escuro
de um rio imenso
que invade e afoga
minha vida e o horizonte
na água da descrença.
No parque,
a estátua sonolenta de Rilke
desceu da base e boceja escondida
entre as árvores
onde a última cigarra solitária
também desiste de cantar
por companhia.
Os casais de pássaros retornam ao ninho,
gratos da jornada no céu quente.
E eu me despeço das promessas
não cumpridas pelo sol
que se dissolvem nas sombras
ou se perdem na solidão do mormaço
sem que nenhum anjo quebre o silêncio
no entorno do banco onde
sozinho
me sento.
sexta-feira, 15 de julho de 2011
Vênus de Milo
Belíssima Mulher de Willendorf
em contornos quase atuais. Embora nos revele
os adolescentes seios e o rígido ventre
(ainda ilesos da maternidade), esconde
o pelo e a carne íntima sob a displicente toga,
que se derramando da cintura pelas pernas
encobre até a pele das coxas
fortes e apetitosas.
Mais que estátua da modelo esculpida,
o mármore capta a pose majestática
e a argúcia da femea adulta,
que do casto ar de inocência e ingenuidade
edifica e camufla seu feminino pedestal.
No Louvre, lembra um Monte Everest
reinando branca sobre cabeças e flashes
do público; tão perfeita e completa
que a mutilação do corpo até parece
intencional.
Tanto assim é que a chuva de focos,
olhares e dedos aponta encantada ao torso
de ombros grosseiramente amputados
e lá detém-se enfeitiçada, desprezando todo o resto;
desdenha até do rosto
de nariz clássico e delicados lábios,
que emoldurados em cabelos presos
por um coque e uma tiara
dão o mítico traço grego
às linhas altivas da face.
Porém, é certo que o fascínio à sua anatomia
aleijada
não resulta de piedade dos turistas.
Talvez, derive do espanto de que sua beleza
suplanta a penosa anomalia,
ou, antes, seja mesmo a ausência dos braços
- defensivos -
que justo a encaixa
num ícone masculino de mulher ideal.
Belíssima Mulher de Willendorf
em contornos quase atuais. Embora nos revele
os adolescentes seios e o rígido ventre
(ainda ilesos da maternidade), esconde
o pelo e a carne íntima sob a displicente toga,
que se derramando da cintura pelas pernas
encobre até a pele das coxas
fortes e apetitosas.
Mais que estátua da modelo esculpida,
o mármore capta a pose majestática
e a argúcia da femea adulta,
que do casto ar de inocência e ingenuidade
edifica e camufla seu feminino pedestal.
No Louvre, lembra um Monte Everest
reinando branca sobre cabeças e flashes
do público; tão perfeita e completa
que a mutilação do corpo até parece
intencional.
Tanto assim é que a chuva de focos,
olhares e dedos aponta encantada ao torso
de ombros grosseiramente amputados
e lá detém-se enfeitiçada, desprezando todo o resto;
desdenha até do rosto
de nariz clássico e delicados lábios,
que emoldurados em cabelos presos
por um coque e uma tiara
dão o mítico traço grego
às linhas altivas da face.
Porém, é certo que o fascínio à sua anatomia
aleijada
não resulta de piedade dos turistas.
Talvez, derive do espanto de que sua beleza
suplanta a penosa anomalia,
ou, antes, seja mesmo a ausência dos braços
- defensivos -
que justo a encaixa
num ícone masculino de mulher ideal.
segunda-feira, 27 de junho de 2011
Ars Poetica
É vã
a emoção do poeta que considera
ter concluído um poema bom,
pois igual à banana que estraga
logo após sua doçura máxima,
também seu cacho de palavras,
de maduro, fermenta rápido
e caminha à podridão.
E o autor, que pelo verso teve
efêmeros orgulho e apreço,
retorna operário
ao poema imperfeito.
É vã
a emoção do poeta que considera
ter concluído um poema bom,
pois igual à banana que estraga
logo após sua doçura máxima,
também seu cacho de palavras,
de maduro, fermenta rápido
e caminha à podridão.
E o autor, que pelo verso teve
efêmeros orgulho e apreço,
retorna operário
ao poema imperfeito.
domingo, 12 de junho de 2011
Paulistana Tróia - 25/01/2011
E porque levanto aqui meu obelisco
e suporto minhas ruínas,
farei hoje uma homenagem ao aniversário
da cidade, assinalando a trajetória
das perenes agonias e euforias
lacradas no tesouro sagrado
da memória:
nos marcos da minha escalada,
embora lembre agora o preço pago,
fincarei apenas uma estaca,
porque só quando o boi de carga para
toma ciência do peso do carro
e da cangalha,
mas em cada palco onde a maldade
e a traição cravaram seu punhal
nas minhas costas, porei uma placa
forjada com o bronze do meu ódio,
acusando o autor da emboscada,
e em cada poço onde ao gozo
das paixões me lambuzava,
com o eco dos gemidos de prazer,
farei no melhor mármore
uma estátua pornográfica,
para que os anônimos cá nascidos,
e mais ainda os vindos de fora,
desfilando agora seu sorriso
nos perfumes do dinheiro
ou carregando sua tragédia
entre os pregos da pobreza,
reparem as cicatrizes no asfalto
e na calçada:
são nódoas indeléveis do meu sangue
e meu esperma, do meu pranto e meus suores;
são as pistas do roteiro
que, cá dentro, comovido eu relembro,
e honrado ou ressentido
comemoro,
já o fedor que te importuna, transeunte,
não me orgulho nem celebro, mas não nego
que é do rio da sarjeta das minhas vilanias
e da carniça dos que ataquei como um abutre;
por isso tudo, São Paulo é uma Tróia
construída com pedras de muralhas
que se rendem só quando dão e cobram,
a cada um, o seu cavalo, a sua alma
e a sua história.
E porque levanto aqui meu obelisco
e suporto minhas ruínas,
farei hoje uma homenagem ao aniversário
da cidade, assinalando a trajetória
das perenes agonias e euforias
lacradas no tesouro sagrado
da memória:
nos marcos da minha escalada,
embora lembre agora o preço pago,
fincarei apenas uma estaca,
porque só quando o boi de carga para
toma ciência do peso do carro
e da cangalha,
mas em cada palco onde a maldade
e a traição cravaram seu punhal
nas minhas costas, porei uma placa
forjada com o bronze do meu ódio,
acusando o autor da emboscada,
e em cada poço onde ao gozo
das paixões me lambuzava,
com o eco dos gemidos de prazer,
farei no melhor mármore
uma estátua pornográfica,
para que os anônimos cá nascidos,
e mais ainda os vindos de fora,
desfilando agora seu sorriso
nos perfumes do dinheiro
ou carregando sua tragédia
entre os pregos da pobreza,
reparem as cicatrizes no asfalto
e na calçada:
são nódoas indeléveis do meu sangue
e meu esperma, do meu pranto e meus suores;
são as pistas do roteiro
que, cá dentro, comovido eu relembro,
e honrado ou ressentido
comemoro,
já o fedor que te importuna, transeunte,
não me orgulho nem celebro, mas não nego
que é do rio da sarjeta das minhas vilanias
e da carniça dos que ataquei como um abutre;
por isso tudo, São Paulo é uma Tróia
construída com pedras de muralhas
que se rendem só quando dão e cobram,
a cada um, o seu cavalo, a sua alma
e a sua história.
domingo, 29 de maio de 2011
Cio
Úmida ainda, e vestida só no odor
de sabonete, ela diante do espelho
se penteia; ocupada, distraída,
toda ingênua e indefesa.
Vista assim, é pura e ascética
como soe aos ladrilhos e azulejos
de pisos e paredes do banheiro.
É a hora ideal para ser lambida.
Porém, não com a ereta língua,
mas só com as salivas suaves
e musicais do vocabulário,
pois para o sexo é indisponível,
porque é preciso certo tempo
depois que a mulher se banha,
para que os fluídos íntimos
retornem à pele e às entranhas,
devolvendo-lhe seu absinto,
sua química, seus feromonas,
o rastro feminino do cio
que humilha todos os aromas.
É quando já assim perfumada,
na essência do seu próprio cheiro,
que mais a mulher excita e atrai o beijo,
levantando o meu objetivo desejo.
Úmida ainda, e vestida só no odor
de sabonete, ela diante do espelho
se penteia; ocupada, distraída,
toda ingênua e indefesa.
Vista assim, é pura e ascética
como soe aos ladrilhos e azulejos
de pisos e paredes do banheiro.
É a hora ideal para ser lambida.
Porém, não com a ereta língua,
mas só com as salivas suaves
e musicais do vocabulário,
pois para o sexo é indisponível,
porque é preciso certo tempo
depois que a mulher se banha,
para que os fluídos íntimos
retornem à pele e às entranhas,
devolvendo-lhe seu absinto,
sua química, seus feromonas,
o rastro feminino do cio
que humilha todos os aromas.
É quando já assim perfumada,
na essência do seu próprio cheiro,
que mais a mulher excita e atrai o beijo,
levantando o meu objetivo desejo.
sexta-feira, 13 de maio de 2011
Testamento
Sim ! Não foi gloriosa a tua vida.
E mesmo se do desastre ela se acerca,
tua desgraça não tem o brilho
do último ato de uma Tragédia;
é só um desfecho mesquinho
e vulgar, à altura dela.
Te faltou coragem quando devias ser forte;
e quando corajoso parecias, tua suposta força
era a armadura de orgulho e teimosia
dos indefesos.
Tuas caravelas, ainda no estaleiro,
já naufragavam nos recifes do medo
sem nunca conhecerem tempestades,
guerras ou a conquista de outras terras.
Sonhastes grande.
Mas tuas epopéias não couberam
no teu tamanho.
Ao fim de tudo, teu monumento em mármore
será uma lápide sem flores, frases nem homenagens,
onde a poeira acumulada no ostracismo
bastará como epitáfio do desperdício
de tempo, esperança e sofrimento
que foi a vida de quem neste mundo
sonhou imenso, mas viveu miúdo.
Sim ! Não foi gloriosa a tua vida.
E mesmo se do desastre ela se acerca,
tua desgraça não tem o brilho
do último ato de uma Tragédia;
é só um desfecho mesquinho
e vulgar, à altura dela.
Te faltou coragem quando devias ser forte;
e quando corajoso parecias, tua suposta força
era a armadura de orgulho e teimosia
dos indefesos.
Tuas caravelas, ainda no estaleiro,
já naufragavam nos recifes do medo
sem nunca conhecerem tempestades,
guerras ou a conquista de outras terras.
Sonhastes grande.
Mas tuas epopéias não couberam
no teu tamanho.
Ao fim de tudo, teu monumento em mármore
será uma lápide sem flores, frases nem homenagens,
onde a poeira acumulada no ostracismo
bastará como epitáfio do desperdício
de tempo, esperança e sofrimento
que foi a vida de quem neste mundo
sonhou imenso, mas viveu miúdo.
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